Nós lutamos diariamente e mundialmente contra a violência que acontece a cada segundo ao redor do mundo. Que é, por si só, bem assustadora. No entanto, quando passamos a frente do espelho, odiamos o nosso corpo. Nos criticamos e nos violentamos contra o tamanho dos nossos seios, as marcas de expressão presente na nossa pele, contra as estrias e celulites. Falamos que nosso nariz é horrível. Que nosso pé é feio. Que nossa bunda é isso e aquilo. Tudo aquilo que não gostamos de ouvir dos outros e ficamos continuamente repetindo para nós mesmas. Não em tom de brincadeira, mas realmente acreditando ou debochando de si mesma. O tempo todo, mulheres estão em guerra com a forma e tamanho dos seus corpos. Tentando se adequar a padrões de revistas. Tentando mudar e ser outra. Tentando reproduzir um estilo que não é seu. Ofendemos nossa inteligência, desvalorizamos a nossa intuição e chamamos ela de louca, desacreditamos o tempo todo em nossas capacidades e depois, nos martirizamos por isso. Desrespeitamos nossas energias, nosso corpo, nosso emocional, nosso ritmo e nossa natureza. Nos violentamos o tempo todo, fazendo escolhas que vão contra as necessidades reais. Dizemos sim para tudo aquilo que deveríamos dizer não. E dizemos muito não para nós mesmas, quando deveríamos estar dizendo sim. O tempo todo, mulheres estão em guerra com as funções naturais do seu corpo. Com seu peso. Com seus cabelos. Com sua aparência. Com sua menstruação. Com sua fertilidade. Com seus desejos e sexualidade. Com sua gravidez e com seus partos. Com a maternidade. Com o envelhecer. Passando fome ou comendo demais. Brigando com seus processos naturais, com seu corpo, com sua natureza e com as mulheres ao redor.

Muitas mulheres, abafam e escondem suas emoções, seus sentimentos, suas feridas, seus sonhos e desejos e assim, vão suprimindo quem são, o que sentem, o que precisam e seu brilho pessoal. Guardamos e cultivamos dentro de nós muita culpa, autopunição, dúvidas de si mesma, ódio e raiva contra si mesma. Acabamos nos dando títulos depreciativos, acreditando e repetindo para nós mesmas que não somos capazes, que nosso corpo não é o suficiente, que nossa fisiologia não funciona direito, que nossos úteros, ovários e seios estão contra nós, que nunca conseguimos fazer algo direito, e assim vai…uma lista longa de nomes que acabamos usando diariamente e banalmente, acreditando que não estão causando nada demais. Virou normal e natural se colocar para baixo, se ofender, se machucar. Porque cada uma dessas palavras depreciativas, são uma chibatada violenta que damos em nós mesmas. E isso, acaba fazendo com que estarmos com nós mesmas, acaba não sendo uma experiência de segurança, de paz e de amor incondicional. Senão estamos seguras com a gente mesma, onde de fato estaremos?

Da mesma forma que propagamos a violência externamente quando disparamos palavras ofensivas contra outras mulheres e suas escolhas pessoais, acabamos fazendo o mesmo diariamente. É como se estivéssemos em cárcere privado de nós mesmas, criando um ambiente hostil e de tirania, onde não conseguimos relaxar, onde não podemos ser nós mesmas, onde não acolhemos quem somos integralmente.

Mas, se isso foi criando força e tornando-se natural ao longo dos tempos, também pode ser desprogramado. Podemos sim, criar um ambiente seguro para nós mulheres. Onde podemos estar em segurança com nós mesmas. Já parou para pensar sobre isso? Quando foi a última vez que você pode olhar para o espelho e estar realmente em segurança com você mesma sem receber uma palavra, pensamento e/ou sentimento violento vindo de dentro de você? O mesmo podemos dizer quando estamos de frente aos nossos sonhos e desejos, quando estamos passando por emoções intensas de felicidade ou de tristeza profunda. Já parou para dar-se conta de como somos violentas com nós mesmas quando estamos passando por um luto? Ou por um término? Ou por uma doença?

Um dos movimentos mais importantes desse despertar feminino é resgatar o ato de criar um espaço sagrado, seguro e pacífico dentro de você. Onde você possa realmente acolher seu corpo, sua fisiologia, sua forma, suas características, suas escolhas e sua trajetória de forma compreensiva, amorosa e com respeito. É um treino, realmente nos olhar ao espelho com respeito, com entendimento e compreensão do que aquela pele, aqueles olhos, aquele cabelo, aquelas linhas de expressão, aquelas cicatrizes, aquele peso, aquela mulher que está a sua frente, passou. É o treino de ser compassiva. De aprender a começar a se comunicar internamente consigo mesma através dos princípios da comunicação não-violenta. Porque, toda a violência que vemos fora de nós, acaba sendo internalizada por nós, sem nos dar-mos conta, e não podemos mais ver como normal nos tratarmos tão mal.

Mulheres, este é um chamado, para que possamos verdadeiramente começarmos a erradicar a violência contra as mulheres, uma a uma, a começar por nós. Se cada uma de nós, se comprometer a fazer esse movimento, o mundo realmente poderia mudar. Porque nós estaríamos comprometidas a mudar. Chega de viver e conviver com a violência diária e achar que isso é normal. Chega de acreditar que é através da dor que crescemos. Nós nos impulsionamos verdadeiramente quando nos amamos de verdade e integralmente. Isso é um treino a ser feito desde o acordar, ao momento em que me olho no espelho, quando escolho os alimentos para este corpo, quando honro as marcas e cicatrizes que eu carrego, minha idade, minhas escolhas, meus dons e desafios pessoais. Quando, eu diariamente, me escolho. E faço essa escolha com amor e por amor a mim mesma.

Vamos juntas, nos desprogramar. Chega de violência. Que a paz comece hoje e amanhã a habitar dentro de você e que assim, comece a brotar um oásis seguro para você se expressar como mulher.

Que assim seja para mim.
Que assim seja para você.
Que assim seja para nós.

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