Não é a toa que a taxa de divórcios cresceu tanto nas últimas décadas, assim como também o número de pessoas que moram sozinhas e preferem seguir uma vida mais solitária. Claro, que isso não quer dizer uma vida sem relacionamentos, mas sim, de relacionamentos sem nenhum vínculo mais sério ou padrão.

Viver só, relacionar-se com várias pessoas ou buscar a solitude não são sinais de egoísmo ou falta de vida social e amizades. Tudo é apenas uma questão de escolha. Um dos tantos estilos de vida que podemos adotar e buscar se isso for mais adequado.

A questão é: Por que não conseguimos mais sobreviver a um relacionamento íntimo com uma outra pessoa partilhando o mesmo teto por uma vida toda? O que pega de verdade?

Dizem que a intimidade é uma merda porque acaba com o mistério, com o tesão e com aquela sensação de novidade. Chega um momento em que se conhece tudo do outro e a rotina massacrante acaba com a vontade de continuar juntos. Mas desde quando conseguimos de fato conhecer a outra pessoa integralmente? Nunca ninguém se revela 100%. E o que mais se vê nos casamentos e relacionamento de hoje, são pessoas vivendo sobre o mesmo teto mas que não se olham, se comunicam e ficam vivendo como se fossem duas pessoas estranhas, onde uma televisão ou várias preenche o silêncio incômodo, que parece-me mais uma total falta de intimidade.

Há estranhos que são mais íntimos do que casais que estão juntos há várias décadas.

A segunda questão é que namorar, casar, fazer sexo etc não são fatores que por si só determinam a obrigação da intimidade. Assim como viver só não é sinônimo de uma pessoa que tenha total intimidade consigo.

A intimidade vem quando realmente nos abrimos a oportunidade de relacionamento com uma outra pessoa ou com nós mesmas, mas sem concessões, limitações ou regras. É como um pulo cego. No início podemos não saber ao bem onde estamos ou onde isso vai parar, mas confiamos. A intimidade ela vem com o tempo. Conforme vamos cedendo espaço para uma outra pessoa em nossa vida, vamos dando-nos a oportunidade de conhecer, explorar e compartilhar coisas nunca antes compartilhadas.

A intimidade vem quando olho para o lado bom e ruim das coisas, e as aceito mesmo assim. Tanto no outro quando em nós. A intimidade ela integra, acolhe e recebe. Mas também sabe dar, recolher e alertar quando necessário. Quando temos intimidade, podemos falar o que pensamos, aconselhar, opinar e ajudar de fato, porque não queremos apenas aceitação do outro, queremos estreitar, fortalecer e aprofundar um relacionamento que já existe, que já passou das barreiras de adequação, aceitação ou socialização. Eu já conheço o outro. Já sei seus gostos e aversões e por isso, posso ir além do superficial e realmente abrir-me para o outro ser de corpo e alma.

Não importa de que forma nos relacionamos, mas até onde vamos neste relacionamento. Ele pode ser superficial mesmo dentro de um casamento ou no sexo, ou pode ser extremamente profundo com um colega de trabalho ou uma aluna. Tudo é muito relativo.

O que torna a intimidade realmente uma verdade em um relacionamento?

1. Abertura. Oportunizar-se conhecer o outro, estar com o outro de verdade.

2. Companherismo. Estar ao lado de alguém pode ser algo muito mecânico ou pode ser uma parceria sincera e fiel.

3. Honestidade. A intimidade cresce conforme vamos percebendo que podemos confiar na outra pessoa e isso traz segurança. Sabemos que estamos em um campo seguro onde podemos ser nós mesmas sem ficar fazendo jogos ou manipulações.

4. Timing. Tudo acontece na hora certa. Há pessoas que em um primeiro momento podemos não suportar e criamos uma barreira intransponível e pré-conceitos que limitam a experiência de verdadeiramente conhecer o outro. Porém, timing é tudo. O jogo pode virar de uma hora para a outra. E, de repente, a pessoa mais distante e detestável, descobre-se tudo em comum e uma intimidade que parece de outras vidas, surge sem mais nem menos.

5. O comum. Ter coisas em comum nos faz ser íntimos de uma grande e variada gama de pessoas. Revelamos determinada parte de nós para uma determinada pessoa. E assim, vamos criando uma teia de pessoas que fazem parte da nossa “intimidade”. Sendo que nem todas sabem tudo sobre nós, apenas um fragmento. Mas, se juntarmos todas, encontraremos um quadro completo do que somos, espelhados pelas pessoas que escolhemos para este círculo íntimo e reservado.

6. Seleção. São poucas as pessoas com as quais queremos de verdade abrir nossa caixinha, nossas vidas, sonhos e pensamentos. A intimidade vai se construindo através de necessidades em comum, possibilidade de ajuda e auxílio mútuos, entendimento e compreensão, conforto e segurança, familiaridade, entre outras coisas. Isso não quer dizer, que só porque alguém é da família, vamos ser necessariamente íntimos por DNA. Há pessoas com quem convivemos poucos que acabam se tornando mais íntimos do que nossos próprios companheiros ou pais. Por quê?

7. Receio. Muitas vezes nos tornamos mais íntimos com alguém fora da nossa família ou do relacionamento afeito por receio de que a pessoa não nos aceite completamente se conhecer nossos defeitos e não somente nossas qualidades. Outras vezes, não damos a oportunidade de revelas quem somos aos nossos parceiros ou familiares creendo que não irão nos entender, que desejarão que sejamos do jeito que eles querem, mas nem sempre precisa ser assim.

8. Laços. Os laços que vamos criando pela vida transcende os de sangue. Laços fortes surgem de situações e momentos únicos que unem duas ou mais pessoas de uma forte, que pode ser muito mais forte e indestrutível que as famílias mais unidas.

9. Proximidade. Muitas vezes a intimidade é construida por conveniência. Duas ou mais pessoas se encontram em um determinado ambiente ou situação por um determinado período de tempo o que pode gerar uma falsa sensação de intimidade, que acaba no momento em que se separam. Como são os casos de cursos, trabalhos, retiros, faculdade, viagens ao exterior etc. Isso, não desmerece a intimidade que se compartilhou.

Podemos ter intimidades momentâneas, temporárias, passageiras, duradouras, eternas e de outras vidas. Laços se formas, laços se quebram. Pensamentos, desejos e segredos são compartilhados. Mas a intimidade só é verdadeira se for sincera, inteira e parceira, caso contrário, pode tornar-se um relacionamento manipulativo, onde finjo uma intimidade para conquistar ou alcançar alguma coisa ou alguém.

Mas ao final, tudo são graus de intimidade…

por Ana Paula Malagueta

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