Há dois lados da moeda. Um deles diz respeito as mulheres que escolhem estar em papel de liderança e condução de trabalhos terapêuticos e do Sagrado Feminino, de que são seres perfeitos, etéricos e que beiram a perfeição. Por isso, não podem errar. Não podem adoecer. Meu deus, não podem sequer, comer uma batata-frita ou seu maravilhoso vinho em seus momentos de lazer. Há uma aura de idealização de como essas mulheres deveriam ser, comportar e viver. E muito disso, vem das nossas próprias expectativas, projeções, desejos e necessidades. Lembro uma aluna uma vez que ficou verdadeiramente indignada quando eu comentei que estava com uma dor de cabeça. E ela me virou e disse: Mas, você é professora de yoga, não deveria ter dor de cabeça! Na hora fique em choque. Tipo: Oi?!

Sim, as pessoas esperam muito da gente.  E nós também cobramos muito de nós mesmas. Mas, acabamos todas acabando caindo nas rotulações e esteriótipos de como uma mulher “espiritualizada” e que trabalha com o “sagrado feminino”e terapias no geral deveria ser ou deveria se comportar. Mas, olha só que armadilha brava! Caímos nas artimanhas do patriarcado, do machismo e de tudo mais, que espera de nós a perfeição. Não importa onde estamos. Não importa em qual mundo atuamos. Se fazemos certo, é porque somos certas demais! Se deslizamos, já falam! Tá vendo?! Aquela pessoa é super fake! Isso, sem contar o que fazemos com nós mesmas internamente, estabelecendo regras, metas e cobranças irreais! Que fazem com que entremos em um ritmo e vibração que sai completamente da vibração do feminino que é fluído, que é circular, que é mutável, que é livre.

O mesmo acontece quando nos colocamos no papel de buscadoras de um meio terapêutico e do Sagrado Feminino. Começamos a fazer vivências, começamos a participar de cursos, começamos a fazer diversas terapias, começamos a seguir caminhos espirituais e quando vemos adoecemos, vivemos perdas, nossa vida vira de cabeça para o ar. E eu me pergunto: Ué, cadê a melhora? Cadê essa Deusa que não vejo me ajudar? Por que estou com câncer nas mamas se estou “curando meu feminino”? Por que meu parto foi uma merda se eu fui atrás da conexão com o meu feminino? Por que não estou conseguindo viver a maternidade plenamente se supostamente me empoderei? Por que continuo com cólicas se estou fazendo tudo certo seguindo os cuidados naturais do feminino?

Porque os caminhos espirituais não são um mar de rosas! Porque o caminho do Sagrado Feminino é um caminho real e não idealizado em um mundo de princesas que nos vendem desde pequenas. Onde não encontramos somente príncipes dentro de nós, mas também desafios, perdas, danos, bruxas malvadas e mortes. Porque o caminho da cura é interno, através dos Vales das Sombras, das nossas crenças, das nossas ilusões, das nossas dores e enganos, das nossas confusões, dos nossos apegos, das nossas doenças e acima de tudo, das chagas e lados sombrios das próprias deusas e do feminino em si. Nós somos seres muito complexos e creer que tudo ficará perfeitamente bem, é infantilidade e pura ilusão. É querer uma pílula mágica para tampar o sol com a peneira. E isso o patriarcado já faz muito bem! Já o feminino autêntico e completo é cru, é nu, é visceral, é primal, é transcendental e é absolutamente tudo, desde as flores da Primavera, até os frutos do Verão, até o abandono das folhas ao vento e da escassez e podridão do Inverno, a falta, a ausência e o fim.

Esses questionamentos ilusórios vem em grande parte porque nos identificamos apenas com algumas partes dessa história do feminino sagrado. Enquanto estamos saltitantes falando de coisas bonitas está tudo bem, mas quando temos que falar do lado B (como eu gosto de chamar da vida) torcemos os narizes. E isso faz com que fiquemos na superficialidade das coisas. Trabalhando com o Sagrado Feminino somente no ralo de nós mesmas. Quando na verdade, temos que descer pelo buraco do ralo, perdoem-me o trocadilho! Porque é exatamente ali que estão os nossos maiores aprendizados! É entrar na casa da Baba Yaga! É descer e morrer com Ereshikigal. É passar um tempo abraçada com a Perséfone. É surtar e se rebelas como Lilith! É se entregar as dores do parto e ao seu descontrole como Ártemis ajudando o parto do irmão Apolo. É partejar a vida e a morte como Hécate. É vivenciar a dor e a doença como Coatlicue e Sulis. É passar pelas perdas e danos da vida e pelos treinamentos mais duros que a Deusa também pode nos oferecer para crescer como Morgana. Assim, como também é todo o lado luminoso, belo, romântico e acalentador, como o manto da Mãe Maria e as asas de Ísis que descem sobre nós.

Mas, quando realmente entendemos em nossas células e alma o que representa as jornadas individuais das deusas é que entenderemos que a jornada heróica do feminino sagrado é roots, baby! Simplesmente porque é real! E neste real encontramos todas as Mil Facetas que tanto adoramos da Deusa. Encontramos tudo, porque o caminho não é uma linha reta, ele é circular. Ele é uma espiral. Ele é uma tramado. Precisamos lembrar que onde colocamos luz aumenta a sombra, que onde há sombra também a luz. Não há nada de errado com tudo isso que falamos. Somos seres imperfeitos e nessa imperfeição que está a verdadeira perfeição. Quando pararmos de julgar umas as outras, quando pararmos de achar que só porque não está perfeito e pacífico não está de acordo, é que realmente começaremos a desenvolver discernimento e clareza para verdadeiramente seguir esse caminho, que pede muito lucidez e muita verdade. É um caminho de consciência e revelações da nossa Sabedoria Inata Feminina, e ela irá nos levar para onde precisarmos para nosso Bem-Mais-Elevado, porque a Sagrada Deusa Mãe, não tem esses filtros morais e críticos que nós temos, Ela sabe que tudo faz parte, que tudo é necessário, e que ao final, teremos passado exatamente por tudo que foi necessário. Porque ela sabe que nenhuma heroína é perfeita, mas que somos perfeitas aos Seus Olhos que veem além dessas ilusões. Ela sabe quem nós verdadeiramente somos, e se você se permitir caminhar pelos Vales das Sombras com a mesma intensidade que caminha pelo Vale das Fadas, você não se deixará enganar pelas esquizoteríces de um mundo apenas de luz, amor e paz, mas um mundo verdadeiro e integrado, onde luz e sombra, feminino e masculino, sol e lua, deusas e deuses são uma coisa só!

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