Eu quis escrever tantas coisas sobre o filme Mãe! Assim como muitas coisas passaram na minha mente, no meu coração e através do meu corpo durante a sessão de cinema, muitas palavras, gritos, indignação, lembranças e frustrações também tiveram o mesmo destino. Todos misturados dentro de mim, com um gosto amargo de pipoca na minha boca. Assistir Mãe! é uma experiência. É testemunhas a construção do que o feminino vem passando ao longo desses tempos do paradigma patriarcal, especialmente, suas influências e consequências danosas para nós mulheres.

O filme é sufocante. Porque a personagem principal tem sua voz sufocada durante todo o filme. Ela não é ouvida. Suas opiniões, desejos e pedidos nunca são atendidos. Pelo contrário, o masculino a ignora, diz que vai atendê-la mas nunca atende, ele simplesmente faz o que quer – explicitamente e implicitamente. Em muitos outros momentos, coisas acontecem, e quando ela tenta participar, é colocada de lado, esquecida ou fecha-se a oportunidade do conhecimento. Coisas acontecem sem que ela saiba. Ela fica no escuro. Isolada. Largada.

O filme é invasivo. Porque a personagem principal tem seu corpo e sua casa, que é uma extensão e manifestação de quem ela é, assim como sempre foi nas tradições da Deusa – o mundo é criado a partir do corpo da Deusa; e esse corpo, essa casa é continuamente invadida. Pessoas aleatórias vão entrando e fazendo o que bem entender. Ela não tem voz. Ela não tem mando. Ela que é a casa, não consegue manter suas fronteiras protegidas. E vamos vendo, ao longo de todo filme, as dinâmicas desastrosas, violentas e destruidoras de todos que vão tomando posse, invadindo, dominando, pegando, usurpando, saqueando, destruindo e destroçando tudo, até não restar nada – apenas cinzas de um mundo que um dia existiu.

O filme é desesperador. Porque a personagem apesar de tudo que passa, sempre volta para o marido. Ele causa e desencadeia absolutamente tudo que ela passa, mas sempre volta para tentar salvá-la, dele mesmo. E é desesperador. Porque cada vez que ele aparece, as coisas sempre ficam pior. Muito pior…em cada cena, em cada processo, em cada interação, vemos amor x guerra. A dinâmica do suposto amor e da realidade que é guerra. Impressionante como o feminino foi construído para ficar, permanecer e se manter em um relacionamento que vai destruindo toda sua existência até não restar mais nada. E mesmo assim, quando nada resta, ele vira e diz: Ainda tem mais uma coisa que eu preciso de você. E o feminino virá e diz: Vai lá, pega! E sim, é isso que acontece com o feminino como um todo – vai lá, pega. Até não restar mais nada de mim.

O filme é simbólico. Porque tudo que acontece. Todos os personagens. Todos os detalhes. Tem um sentido e um propósito maior. Fazem parte de um contexto. E se você não souber ver, tudo parecerá apenas horas e horas de nonsense. Mas, não são. Ou melhor – são. Porque o patriarcado é bem sem sentido, mesmo. Porém, do começo ao final, entram em cena, a reprodução do Genesis, das cenas e pedaços bíblicos mais importantes, desde Adão e Eva, até Caim e Abel, Virgem Maria x Maria Madalena, cenas de morte, guerra, assassinatos e atos justificados por uma força maior!? Não? Sim, Deus justifica tudo…e o feminino, só fica lá, sendo jogado de um lado para o outro, como um peão da grande criação? É….bem, é assim que o filme se desenrola. E a casa sangra, como também sangram as mulheres, mensalmente através do seu ciclo, na hora do parto ou quando seu corpo é violado. Ela sangra….o filme sangra…e é um sangue que já não dá mais para esconder…ocultar embaixo do tapete….ele escorre pelas paredes….e de repente…uma saída, uma abertura, um caminho se faz presente…e dele, sai um sapo. E nesse momento, sorri: Salve, Hécate! Senhora das encruzilhadas, apontando um mistério, um oculto e uma saída…mas, ela foi deixada de lado, misturada com sangue, com fogo e com desespero.

O filme é cíclico. Porque, em meio de todas aquelas barbaridades. Em meio da narrativa do feminino dentro do mundo patriarcal. Tem algo que pulsa. Tem um feminino que pulsa. O coração e o ventre da Terra. Sim. O tempo todo ela tenta manter a conexão com o feminino profundo dentro dela. Ao tocar as paredes, ela vê como estão as coisas. Como está seu coração, seu íntimo e seu pulsar. E ele segue por quatro fases distintas. Passando pelas quatro fases do feminino: Donzela/Primavera/Crescente – Mãe/Verão/Cheia – Feiticeira/Outono/Minguante – Anciã/Inverno/Nova. Desde um coração novo em folha, integrado e pulsante, até um coração negro que traz o fim e a morte. E assim, também, sempre foi o feminino. Ele é vida que se renova, e podemos ver isso no início do filme e ao final novamente. Porque o feminino, como Clarissa Pinkóla Estés aponta é vida-morte-vida. E no filme, isso fica expressamente claro. E acompanha a narrativa, patriarcal-bíblica.

O filme é foda. Porque mostra todas as crenças, paradigmas e couraças que recaíram sobre o feminino. Tratando-se especialmente, da esposa e da mãe. A idéia da virgem doadora, que está lá, constantemente devotada e a serviço do marido. Sem voz. Sem cor. Sem presença. Apenas, uma coadjuvante. Mas, ainda assim – musa e deusa. Porque é dela que vem a fertilidade, a criatividade e obviamente – a vida! Assim, como, ela também, é aquela que carrega a chaga de – puta, vagabunda, vaca e piranha. Que merece ser punida. Que merece morrer. Porque, por mais que ela faça, nunca nada estará bom. Nunca nada será o suficiente. Nunca nada basta. Ela se doa. Ela se entrega. Ela se devota. Mas, ainda assim, a dualidade virgem e puta, continua ecoando em nosso inconsciente. Em um lapso de instante, a virgem que pare a criança divina, vira a puta. E o ciclo se repete e se reinicia, ad infinitum. O filme é perturbador. Porque mostra o peso que se coloca no papel das mães. Toda a idealização e romantização da maternidade, atrelada, com um quê de doação sem fim; abrir-se mão das suas vidas e estar sempre a serviço de todo mundo – menos dela. Em diversos momentos do filme, eu queria gritar: SAI PORTA A FORA! VAI EMBORA! FOGE! Mas, não! Fica-se por conta do compromisso, do dever, das ilusões e idealizações que se coloca em cima do casamento.

É enlouquecedor! Perceber, como tudo ali, é uma metáfora do que veio e vem acontecendo com as mulheres em diversos âmbitos. É assustador. É desolador. É revoltante! Dá vontade de tacar fogo em tudo. E o pior é que seguimos, fazendo o que bem entendemos com a nossa Mãe Terra, com nossas mães e com nossas mulheres. O feminino foi ao longo da história, usurpado, usado e violado. E isso dói. Dói assistir. Dói reconhecer. Dói tomar consciência. Porque nada do que vi é novo. Tudo está aqui, ao nosso redor e especialmente, dentro de nós. Essa grande guerra que já vem sendo travada a séculos. Entre masculino e feminino. Entre luz e sombra. Entre as partes da criação. Vivemos a ilusão da fama e das celebridades instantâneas. Vivemos a violação de tudo que há mais sagrado. Vivemos a destituição do pertencimento primordial do lugar que cada um tem na ordem da criação. Vivemos um mundo de desordem, caos e guerra, que já se tornou sem propósito. Um mundo de cada um por si. Egoísmos. Vontades. Desejos. Poder. E como dizia Jung: Onde há poder, não há amor. E neste filme, vemos a narrativa de um encontro onde há amor em apenas um dos lados e o poder do outro. E bem…quando o poder, quer usar o amor para se erguer e brincar de criar indiscriminadamente, bem…o que temos é a mais pura destruição.

Eu quero que todas as mulheres assistam. Porque, tomar consciência e ver – é sair do silêncio, é encontrar sua voz e se fazer ouvida. Porque, quem sabe assim, encontremos novamente os caminhos de volta umas para as outras e para nós mesmas. Quem sabe, consigamos deixar essas casas adoecidas ou coloquemos todas que a profanem, para fora, e voltemos a cuidar do que é nosso – de nós mesmas. Quem sabe…realmente, consigamos, juntas, amparar e dar as mãos para essas mulheres que estão sozinhas, em casas que estão sendo destruídas e que juntas, possamos recomeçar em amor.

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