Todas nós somos muito diferentes umas das outras. Cada uma traz em si, sua história, sua jornada, sua ancestralidade e suas escolhas ao longo da vida. Somos uma grande complexidade de experiências: interiores e exteriores. Ao mesmo tempo, que também somos um Grande Círculo de Mulheres da Terra, onde, estamos para sempre ligadas pelos laços inquebrantáveis de sangue que compartilhamos desde que nascemos, desde antes e para todo o sempre depois. Há uma rede maior que nos une e é dessa que eu gostaria de falar hoje.

Eu ouço muito a palavra Sororidade por todos os lados. Assim, como também ouço muitas mulheres reclamando que não há verdadeira sororidade entre as mulheres e que isso é só uma utopia. Primeiro de tudo, precisamos lembrar, que todas nós trazemos um chip patriarcal, que inconscientemente e conscientemente nos faz agir de determinada maneira. Todas nós fomos criadas em uma sociedade machista, e algumas já sabem disso e estão tentando, conscientemente mudar. Mas, é complicado. É difícil. É um trabalho demorado. Porém, quando damos o primeiro passo é muito improvável que voltemos. Porque quando os olhos de fato se abrem, nunca mais somos a mesma. Porque começamos a ver o que antes não conseguíamos ver. Por que estou falando isso? Porque temos que ser honestas, antes de tudo. Todas nós estamos no mesmo balaio. E a partir do momento que reconhecemos isso, já começamos a praticar a sororidade.

Todas nós teremos nosso tempo para despertar. E precisamos começar a respeitar quem ainda não despertou ou melhor, quem está em outro momento da caminhada que todas nós iremos fazer. Porque, quando falo despertar, pode parecer algo até esquizotérico, como se eu fosse melhor do que a outra ou estivesse mais “avançada” em algo do que a outra. E não é isso. São apenas momentos de vida diferentes e percepções distintas. Cada uma terá seu momento para abrir os olhos, para perceber as coisas diferentes e para se abrir ao feminino quando de fato puder.

Por isso, chamo a atenção de todas nós para reconhecer o que nos faz violentar ou violar a sacralidade da sororidade que estamos buscando reconstruir entre nós. Porque ela sempre esteve lá. Na troca de olhares cúmplices e silenciosos entre as mulheres de uma família, por baixo do véu de uma mãe e sua filha, nos sorrisos que trocamos mesmo quando não expressados, quando estendemos a mão para a outra mulher levantar, ou quando eu tiro um momento para defender outra mulher. Isso sempre esteve presente, mesmo que veladamente, mesmo quando as mulheres não podiam dizer…lá no fundo, o Divino nunca nos abandonou. Nós é que abandonamos umas as outras, na maioria das vezes, quando deixamos de sermos cúmplices, para nos tornarmos inimigas. O patriarcado nos afastou e nós permitimos. Quantas de nós não preferiram ter amigos homens, porque consideravam ser mais fácil estar entre eles? Quantas de nós não foram “filhinhas do papai” porque nossas mães eram isso ou aquilo? Quantas de nós até hoje ainda não agem assim em maior ou menor grau?

Esse é o ponto de partida. O crescimento só vem quando reconhecemos o que precisa mudar. O conhecimento só vem quando estou curiosa o suficiente para abandonar o que era conhecido e familiar até agora.

Então, vamos tentar ter mais consciência dos nossos atos, palavras e pensamentos, porque é dentro de você que a sororidade começa.

  1. Desenvolvendo mais compaixão e empatia –  Lembrando que assim como a outra pode falar uma bobagem ou ter uma atitude machista, você também já o teve muitas e muitas vezes. Calma. Não é culpando-a e acusando-a que você irá ajudá-la. Sororidade é respeitar o tempo da outra. Uma ensinando a outra. Uma olhando para a outra e reconhecendo que já também passou por isso. Ou se não passou, pense: Como eu iria gostar que me abordassem se eu estivesse no lugar dela?
  2. Desenvolvendo paciência – Lembre-se que alguém teve muitas paciência para te ajudar a ver, te ajudar a entender toda essa história de patriarcado, feminismo, violência contra as mulheres e feminino sagrado. Então, porque agora você não pode conceder o mesmo para a outra mulher que está precisando?
  3. Desenvolvendo a capacidade discriminativa – Por que você chamou aquela mulher da vaca? Por que a roupa da outra te incomodou? Por que você achou o comportamento da outra inadequado? Por que você está falando mal de outra mulher? Por que você está reclamando da outra mulher? Por que você está culpando a outra mulher? Nós temos que refletir mais sobre os nossos pensamentos, palavras e ações, para começar a reconhecer quando estamos reproduzindo um comportamento machista e de onde ele vem. Se queremos mudar, temos que primeiro ter consciência do que fazemos. Por isso, apontar o dedo para a outra, é a melhor hora para aprender.
  4. Desenvolvendo a abertura para aprender – é preciso estarmos dispostas a mudar, a sair do comum, a abrir mão de tudo que eu vinha fazendo até agora. Todas nós fomos criadas assim, mas isso não precisa ser definitivo e nem uma sentença de morte.
  5. Eu, você e as outras – eu preciso aprender a dar espaço para a outra falar sua verdade, sem querer ganhar a conversa. Eu preciso aprender a dar espaço para ouvir a verdade e histórias das outras mulheres, sem querer dar pitaco e julgar suas escolhas, mesmo que não sejam iguais as nossas. Eu preciso aprender a entender que não estamos o tempo todo competindo, duelando ou tentando vencer algo. Precisamos criar o hábito de termos encontros mais tranquilos com as outras mulheres. Onde todas podem ser iguais. Onde todas podem falar. Onde todas podem ouvir. Onde todas podem se ajudar, se assim for o desejo. Com mais leveza. Porque as mulheres estão cansadas de terem os dedos apontados para suas vidas. De alguém ter uma opinião sobre o que ela fez ou é. Simplesmente, estão cansadas de ter que a todo custo sustentar através de argumentação ou guerreando por um espaço na sociedade. Eu quero que possamos abrir um espaço em nossas rodas da vida para que essa mulher possa entrar e abandonar suas armaduras. Porque tem vezes que eu também estou cansada dessas guerra de mil anos sem fim…e você Por que eu tenho que ficar o tempo todo guerreando com a outra mulher? Não precisa ser assim…mas, para isso, eu preciso de você e você precisa das mulheres da sua vida. E todas as mulheres precisam do seu apoio. Isso não quer dizer que deixarei de ser verdadeira, honesta e autêntica, isso quer dizer, que todas nós podemos ser tudo isso juntas, sabendo que só isso já é o suficiente.
  6. Referências femininas – precisamos ter mais referências femininas, de liderança e de inspiração. Enquanto nossas bases forem masculinas e enquantos tivermos medo da punição de um homem que irá jogar raios sobre nossas cabeças, continuaremos fazendo isso com as mulheres de nossas vidas e do mundo. Basta ver como tratamos as mulheres da nossa família e como muitas vezes as celebridade femininas são julgadas e punidas por seus atos até não poder mais. O “pecado original” ainda nos assombra e o primeiro passo é mudar isso, vendo quantas mulheres incríveis temos em nossa história e em nossas casas! Reconhecer isso, pode fazer, pela primeira vez, com que você desarme suas mães, sejam desarmadas pelas suas filhas ou pela primeira vez na vida de alguém faça uma mulher verdadeiramente feliz.  Todas nós somos heroínas, e precisamos ser reconhecidas por isso, e nossas histórias precisam ser compartilhadas. Histórias de mulheres.

Em breve, conversaremos mais a respeito.

 

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