A gestação é um período onde a perfeita existência e nobreza do Sagrado Feminino se faz ser visto. Em todas as suas nuances. Em todas as suas incoerências. Em toda a sua multiplicidade. É neste período de incubação que a mulher depara-se com diversos arquétipos do seu próprio Eu. Onde diversas deusas dançam e expressam-se em sua totalidade. São 10 luas, de fases, de formação, germinação, nutrição, crescimento e desenvolvimento. Onde, juntos, mãe e bebês preparam-se para seus nascimentos.

A face de Deméter e sua presença podem ser as mais perceptivas. É a Mãe revelando-se em sua totalidade. Desde do físico que vai tornando-se arredondando e divino, como se um coral de anjos e sacerdotisas andassem ao redor dessa mulher: amparando, fortalecendo e abençoando. É o transbordar das águas, emoções e flutuações. É a constante mudança e a presença da total abnegação. Essa mulher já não vive por si só ou para si mesma apenas: ela vive também pelo seu bebê. É a mãe protetora, nutridora e acolhedora. É o ventre materno. É o colo e o seio da mãe Deméter. Que é plena pelo simples fato do seu ventre estar preenchido da plenitude da nova vida e colheita vindoura.

A face da Perséfone também-se é sentida, principalmente para quem experimenta o outro lado da gestação. Seus desconfortos, seu medos e suas incertezas. A dúvida. A hesitação. O profundo temor da total perda de identidade pessoal e do controle. É o mergulho no desconhecido e na total incerteza. Porque, independente das milhões de preparações que possamos fazer, nada de fato nos prepara para este momento. A não ser a profunda entrega e confiança. Porque a gestação te dá meses para treinar a entrega na profundidade da experiência de gestar uma vida. De mergulhar no mundo de Perséfone com total confiança na sua sacerdotisa interior. Naquela parte de nós que simplesmente sabe. É bem, Perséfone sabe. Sabe que sua intuição é sua melhor guia. Sabe que seu corpo sabe. Seu ventre sabe. E que a força da sua mãe Deméter está contida dentro dela. E que em cada contração. Em cada mergulho na profunda escuridão do ser a caminho da luz, há sua voz, sua sabedoria, suas ancestrais, que juntas detêm o conhecimento da vida e da morte. Do fim e do recomeço. E é exatamente neste limiar de transição entre a gestação e o parto que Deméter e Perséfone se encontram e unem suas mãos, cantos, preces, ventres e corações para auxiliar essa mãe e esse bebê em deixar de ser algo e morrer para o que era, para renascer em uma nova vida, daquilo que agora já não é mais.

É nesta hora, que encontramos a luz que nos guia. As mãos que nos amparam. Os olhares cúmplices que nos acompanham e asseguram-nos. As vozes das ancestrais que cantam e oram por nós e por nosso bebê. É nessa hora que ventres e corações cantam a canção da criação. É nessa hora que mulher e mãe tornam-se uma só. É nessa hora que damos início ao mergulho no negro túnel da morte para darmos à luz a nós mesmas. Amparadas pela anciã, pela bruxa e feiticeira, despertamos a parteira celestial que habita em nós. E Hécate, em toda sua sabedoria, junta-se a Deméter e Perséfone, para chamar por essa nova mulher em nós. Por nos lembrarmos que temos a força para tudo e que ela nos atravessa e transcende, em inquebrantável resistência, força e poder. Que nossas contrações uterinas são sabias. Que nosso bebê sabe como vir ao mundo. Que se olharmos nessa escuridão encontrarem0s a mais forte luz em nós e que está luz é a força de Hécate que nos guia e que guia nosso bebê ao mundo.

Amparados pela tríplice força do Sagrado Feminino damos à luz a nós como mulheres. Já não somente donzelas. Muito mais do que amantes e mães. Mas também feiticeiras, porque abrimos as pernas para a mágica do mundo acontecer entre sangue e suor, entre luz e sombra, entre o limiar dos mundos trazendo duas novas existências à vida. E isso é incomparável. Isso é louvável. Isso é digno de ser reverenciado para sempre, em nossas mães, avós, irmãs e filhas. Por cada familiar, ancestral e amiga que já pariu e partiu-se em três para que a face escondida do feminino se revelasse em seus mistérios inexplicáveis do parto e das mulheres. Porque ao invés de queremos entender, controlar ou nomear, devemos apenas abaixar nossas cabeças e honrar essa mulher e seu ventre mágico e divino. Porque ela encarou uma das jornadas mais profundas, transformadoras, inomináveis e misteriosas da sua vida. Como protagonista da sua história. Como dona do seu corpo e das suas escolhas. E assim, renasceu.

Ela e esse mundo é um templo sagrado. É a tenda vermelha do amor que nunca deveria ser profanada. E essa chave está em nossas mãos. Guarde-a a sete chaves e proteja seus segredos. Porque toda mulher contêm em si a semente, a árvore e os frutos da Sabedoria mais Ancestral do Feminino, assim como também é a iniciadora de vidas desde o nascimento e para sempre.

Com carinho e amor, Do meu ventre para o seu com respeito  

Imagem: desconhecido
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