Estava nessa semana conversando com umas alunas antes da aula de yoga sobre a questão do consentimento. O mais legal do papo todo é que duas delas eram grávidas. E ao longo de algumas aulas e diferentes turmas, este tema foi tomando forma e aprofundando-se de uma forma tão ampla e abrangente que trouxe uma clareza muito grande para todas nós. Nestes últimos tempos, está vindo à tona muitas questões sobre assédio. Mais especificamente, sobre o que de fato constitui o assédio. E como vivemos em uma sociedade com um paradigma de dominação, extremamente machista, em diferentes 50 tons de machismo ao redor do mundo, pode-se ficar um pouco confuso e abstrato para algumas pessoas, enquanto para outras, é bem explícito, claro e palpável.

Refletindo sobre a questão do assédio x consentimento, fomos voltando no tempo para entender onde isso começava. Porque todas nós mulheres sabemos que vamos sendo criadas, muitas vezes, para deixar para lá, algumas coisas. Levar na brincadeira outras. Sorrir e fingir que não é com você. Ou, colocar-se de uma forma que não chama-se a atenção ou encoraja-se os homens a fazer algo. De todas as maneiras, percebi, que sempre ficávamos com a responsabilidade de tudo, desde ser conivente até fingir que nada aconteceu. E assim foi seguindo a humanidade, onde mulheres ficavam em silêncio perante assédios, violências e absurdidades desde tenra infância. Vamos aprendendo a nos calar. E homens, vão aprendendo a se saber. A ver que nunca são punidos pelos seus atos. Que sempre vão arrumar alguma desculpa para seus comportamentos. Ah, aquele seu tio é tarado, porque é tão solitário. Aquele seu avó tem mão boba porque já está gaga. Seu pai grita assim com a gente porque está muito estressado no trabalho. Ele me bateu porque me ama. E assim, segue a humanidade machista até os ossos e os pós de tantas mulheres que vão sendo punidas, muitas vezes com suas vidas, por eles nunca serem punidos e assumirem suas responsabilidades frente essa sociedade patriarcal, tão doente.

O grande problema é que isso vem desde o ventre. Já percebeu como as pessoas chegam colocando as mãos nas barrigas das grávidas sem perguntar se podiam? Sem perguntar se ela queria? E depois, vão pegando os bebês no colo sem pedir. Apertando bochechas de crianças, sem elas de fato quererem ou sequer gostarem. Passando a mãos nas crianças sem pedirem licença. Forçando filhas e filhos a beijarem e abraçarem quando não querem, ou deixar outros fazerem o mesmo com ela, sem pedir. E assim, as coisas vão acontecendo, sem nunca nos ensinarem que é preciso perguntar para nós se consentimos com o que irá e está acontecendo. E isso vai desde, tocar no corpo de uma criança, até decisões. Alguém de fato pergunta para você o que você deseja e quer? Desde o ventre vão decidindo por nós. Você chega no parto e vão tomando decisões e fazendo coisas com seu corpo, sem o seu consentimento e muitas vezes entendimento. E isso, entre muitas outras coisas, é violência obstétrica. Mulheres que passam por momentos horríveis em seu parto de ofensas, abandono e coesões. Manipuladas, abandonadas e retiradas do seu próprio poder de escolha.

Depois vamos crescendo e as crianças não sabem que podem dizer não. Que podem dar limites aos outros, quando não querem ser tocadas, beijadas ou serem coagidas a fazer algo que não querem. E que devem dizer não. Que devem falar quando alguém fez algo com o corpo delas. E isso depende de nós, porque elas não sabem o que é certo ou errado. O que pode ou não pode. Especialmente, porque nós nos silenciamos perante a violência, os assédios e os abusos. E como a maioria das mulheres abusadas o são pela sua família, vamos carregando muitas histórias de mulheres silenciadas que levam isso para suas vidas.

E depois, quando estão se relacionando, vão se silenciando e não conseguem perceber que estão em uma relação abusiva. Que estão sendo assediadas. Fui fazendo uma retrospectiva e vendo como meus amigos homens no geral faziam assédio toda hora e a gente é quase que treinada a rir, relevar e deixar para lá. Mas, é uma invasão tão grande, ter que tolerar e ouvir homens fazendo gracinhas o tempo todo, invadindo seu corpo e espaço, e ser tolerado. Por quê? Por que recai tudo sobre nós? Porque ninguém fala nada para eles. Por que eles podem tudo, e nós temos que deixar para lá? Relevar? Levar na esportiva? Parar de ser chata? Familiarizada com essas frases abusivas? Pois é…porque em uma sociedade de dominação, o dominado não pode nada e o que detêm o poder, não pode ser questionado. Então, seguimos abaixando a cabeça. E aquelas que não o faziam, pagavam as consequências. Quantas mulheres não morrem após uma denúncia? Após um enfrentamento? Ou são isoladas e questionadas, postas a dúvida quando fazem uma denúncia? Isso é um cenário comum. Hoje, que estamos dando crédito maior às vozes das mulheres e juntando-nos a elas. Porque percebemos que não dá mais para calar. Que tudo que acontecia com a gente até hoje, não era normal. Era assédio. Era violência. Era errado.

Vamos aprender sobre o que é assédio e suas formas de violência?

Grande parte dos estupros, por exemplo, acontecem em casamentos. Porque há uma idéia de consentimento eterno após os votos. O que não é verdade. O consentimento é algo que é revisto constantemente. O tempo todo. Porque a vida é dinâmica. É mutável. Nós nunca estamos os mesmos. E, por exemplo, achar que a mulher tem que estar sempre disponível e com disposição para o sexo é uma grande falácia. E então, vamos criando relacionamentos, onde o não estar disponível, o dizer não estou a fim, deixou de ser ouvido, e muitas vezes, deixou de ser sentido pelas mulheres. Muitas pensam: melhor fazer logo, assim ele para de me encher o saco. Melhor fazer logo, porque senão ele vai me deixar ou arranjar uma amante. Percebem, sempre cedendo pelo outro e nunca sendo ouvida. Recentemente, recebi um vídeo estarrecedor que retrata, este que é o Mais Ordinário dos Estupros, e como os assédios, as violências e os abusos estão permeando todas as áreas das nossas vidas. De forma banalizada e normativa.

Mas, o consentimento está presente o tempo todo. Desde em situações onde decisões são tomadas, sem perguntarem para você se era isso que você queria. Quando sua inteligência e julgamento são questionados para então, impor à decisão masculina em cima da sua. Sobre seus desejos. Sobre seu corpo. Sobre suas emoções. Sobre sua mente. O consentimento deveria ser parte integrante, porque é o mínimo que queremos nas relações. Pessoas que ouvem as necessidades e desejos das outras e então, são ouvidas, trocam e decidem juntas, levando em consideração ambos. E não um só lado. A cultura de dominação é composta de verdades absolutas. Então, ficamos nessa roda sem fim, de homens que não são questionados. E mulheres que nunca são levadas a sério e que são mudas.

Mudas enquanto fazem com seu corpo algo que não querem.
Mudas enquanto vai fazer algo que não era seu desejo.
Mudas quando tem seu sentimento sobreposto pelo do outro.
Mudas quando seus pensamentos são desvalidados.
Mudas enquanto outras mulheres são violentadas.
Mudas enquanto passam pela vida sendo assediadas, violentadas e abusadas em todos os níveis, dentro e fora de casa.

Precisamos trazer esse movimento, de desde pequenas, começar a ensinar às nossas filhas e filhos o que é consentimento. Empoderá-los de escolha e decisão sobre seu corpo, emoções e mente. Explicar os limites. Dar voz às suas necessidades e angústias. Ouvir. Ouvir e ouvir. Empoderar nossas adolescentes e meninas, para que não vendam ou transfiram seu consentimento para os outros em troca de aceitação fulgaz e transitória. Ensinar e educar nossas mulheres, de que está tudo bem tomar de voltar o poder sobre si mesma. Que tem todo direito de dizer não. E dizer sim, quando bem entender. Como pode reconhecer que está em um relacionamento abusivo, passando por assédio e como pode fazer para sair dele. Nós mulheres, precisamos aprender a acolher as outras mulheres, a não ficar calada frente abusos, em lugar algum. Abuso não é moeda de entretenimento e nem algo que não metemos a colher. Devemos meter sim, todo nosso caldeirão e não só a colher de pau. Não é mais tempo de calar. E sim, de soltar as vozes de todas as mulheres das nossas linhagens e que já passaram por essa terra. Porque elas merecem isso. Precisamos resgatar nossa dignidade. Nosso lugar e acima de tudo, mostra que não há mais impunidade para esses tipos de comportamentos e que não estamos mais dispostas a sorrir, virar o rosto ou calar.

Não!
Isso não passará mais!
Mexeu com uma, mexeu com todas.
Nenhuma mulher a menos. Nenhuma voz a menos. Nenhuma mulher deve ser esquecida.

É chegada a hora da verdadeira sororidade e irmandade das mulheres da Terra. Por todas.

Imagem: desconhecido
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