Eu sou a Deusa. Eu sempre estive presente. Eu sempre estive aqui. Onde? Em todos os lugares. Por todos os lados. Em tudo que existe. Porque eu sou o princípio de toda a criação. Eu sou o ventre de onde a vida surge e eu sou o ventre que te recebe de volta quando dá sua última expiração nesta vida. Você me encontra em todos os lugares, desde os primórdios. Naqueles tempos, você me encontrava na natureza, no céu, na terra, no vento, nos pássaros, nas tempestades, nos animais, nas estações e também nas fases da Lua. Eu estava por toda parte, e mesmo que ainda pareça impossível, continuo a estar em todos esses lugares e em muitos outros, diariamente. Estou sempre a te esperar. Porque eu quando a vida existir, eu também existirei. Você pode me chamar de Deusa, de Grande Mãe, de Divindade Feminina, de energia ou de nada também. Nomes não são tão importantes assim, apesar de eu ter muitos. Dizem, que eu tenho Mil Nomes! “No Império Romano, durante a Era Dourada de Apuleius no Segundo Século D.C, a Deusa era celebrada como a Deusa de Muitos Nomes. Nos mitos clássicos, ela aparece como Afrodite, Ártemis, Deméter, Perséfone, Athena, Hera, Hécate e as Três Graças, as Noves Musas, as Fúrias, e assim adiante. No Egito, ela aparece como Isis, na antiga Babilônia como Ishtar, na Suméria como Inanna, e entre os Semitas, ela é Astarte. É a mesma deusa, e a primeira coisa a se dar conta é que ela é uma deusa total e como tal possui associações com todos os campos do sistema cultural. Nos períodos mais tardios, essas diferentes associações tornaram-se específicas e separadas em diferentes deusas especializadas.” (Campbell, Goddess: pág. 22).

Como você pode ver, tenho muito nomes, assim como também, tenho muitas formas. Você irá me ver da forma que fizer mais sentido para você. Eu estou presente em todas as diversas manifestações femininas, visto que as deusas representam as múltiplas manifestações, atributos e facetas do feminino arquetípico. Considerando os arquétipos como campos energéticos autônomos, eles podem ser alterados em função de modificações conceituais, culturais e sociais, expandindo assim a gama de possibilidades criativas e realizadoras das mulheres, acrescenta Mirella Faur. Isso também quer dizer, que estou presente em você, nas suas irmãs e filhas, nas suas mães e avós, e em todas as mulheres que cruzam a sua vida. Mas, eu, que sou o aspecto feminino do Divino, também estou presente nos homens, porque se você se lembrar, tudo é yin e yang. Então, eu faço parte dessa dança cósmica.

Assim, como também, sou Aquela que você busca, quando começa a resgatar os Saberes Femininos, quando começa a resgatar os caminhos e sabedorias das suas ancestrais femininas e quando está experimentando uma roda de mulheres do Sagrado Feminino ou um círculo de mulheres na sua convivência, fora e dentro de casa. Porque, como disse Patricia Monaghan, o caminho da deusa está dentro de você…é aí que ela mora, mesmo quando você se esquece de procurá-la. Procure por ela nessa lugar e sempre a encontrará. Porque eu sou aquilo que você esteve esse tempo todo buscando. Principalmente, quando você esteve ou está procurando a si mesma. Afinal, eu sou você e você sou eu. Você veio do meu ventre, assim como todos os seres humanos. Quando você me busca, você está na verdade, se buscando também. Eu estou em seu corpo, em seu útero, em seus seios, em sua respiração, em seus pensamentos, em seu olhar e em sua voz. Eu estou. Eu sou. Nós somos. Estamos juntas em todos os ritos de passagem feminino. A minha expressão, manifestação e abrangência está contigo quando nasce, ao receber a menstruação pela primeira vez, durante sua primeira relação sexual, quando engravida, pare e vira mãe, quando entra na menopausa e quando fazes sua passagem, de volta ao meu útero sagrado, de volta à Terra, voltando a fazer parte do meu corpo.

Alíás, o útero, o grande caldeirão, as águas, os ciclos e a mutabilidade, fazem parte do meu reino. É ali que tudo começou. Vou te contar um pouco melhor: Quando existia apenas o útero escuro da Deusa. O pleno vazio de potencialidades e possibilidades, havia o pulso do potencial da criação. Um potencial que precisava ser manifestado. Essa manifestação veio a ser conhecida dentro das mais diversas tradições como o mito do ovo cósmico. “O mito cósmico da Deusa como uma ave aquática carregando um ovo ou um duplo ovo em seu corpo.” (Gimbutas: Criadora Divina: pág. 48). Aquela, que a partir dela mesma, gera o que conhecemos como mundo. Assim, como Eurinome, Ophion (a serpente primordial) e o ovo cósmico. “Na antiga mitologia egípcia, a deusa cobra Ua Zit é a original criadora do mundo” Eisler (pág. 141) Sendo que Uadjit é até mesmo a predecessora de Ísis, que depois veio a ser conhecida com a Deusa de Mil nomes. Aqui, encontramos a Deusa como uma força primitiva e anterior a tudo. “Ela representa o princípio da natureza. Nós nascemos fisicamente dela. […] Ela representa aquele princípio em ambos seus papéis: beneficente e horrendo: a Terra que dá a luz, e dá a nutrição, mas que também nos leva de volta. Ela também é a mãe da morte, e a noite que desliza para onde formos.”(Campbell; pág. 11)

Durante toda a história encontramos a Deusa e o Feminino serem honrados de diversas maneiras, isso pode ser visto, principalmente através das artes. Desde as pequeninas estatuetas de Vênus, até os mergulhos pelas cavernas com suas simbologias. Ela era parte integrante de tudo, seus ciclos, suas estações e tudo que poderia oferecer. Estava nas árvores, nas montanhas, nos mares e rios e também em todos os animais. Por isso, temos ao longo dos tempos diversos objetos e símbolos que são muito particulares ao culto do Feminino. Como alguns animais (felinos, corujas, serpentes, entre outros) e também “…conchas em forma de vagina, o ocre vermelho dos sepultamentos, as chamadas estatuetas de Vênus e as estatuetas de criaturas meio-animal, meio-mulher, descartadas como “monstruosidades”, relacionam-se a uma forma primitiva de adoração, na qual os poderes da mulher de doar a vida desempenhavam papel importante. (Eisler: pág. 45)

Assim, vemos diversos trabalhos antes da guerra e da dominação e alternância de poder, uma arte e uma vida experimentada de forma totalmente diferente. Onde a arte era muitas vezes para louvação, conexão e acima de tudo, expressão da magia que era o Feminino que não podia ser explicado. “Em toda parte há figuras femininas, muitas com braços levantados num gesto de benção, algumas segurando serpentes ou machados duplos, símbolos da Deusa.” (Eisler: pág. 76) “…simbolizava a superabundante fecundidade da Terra. Com o mesmo formato dos machados usados para cultivar a terra no plantio, ele representava também a borboleta, um dos símbolos de transformação e renascimento da Deusa.”(Eisler: pág. 81) “A associação de sapo, vulva e postura de dar à luz tem especial importância devido à sua persistente continuidade durante todo o período pré-histórico e histórico, chegando até o nosso próprio século […] de que o sapo é a própria Deusa e que ela também é a vulva ou o útero.”( Gimbutas: Criadora Divina: pág. 43)

Era uma vida onde as sacerdotisas e xamãs chegavam ao grau de autoridade e respeitos máximos, porque assim também respeitava-se a magia da vida, onde o encantamento das fases da lua, das estações do ano, e do ritmo da natureza em sua máxima fertilidade e mais pobre escassez não somente eram reverenciados e compreendidos, como temidos. Porque assim a expressão da Grande Mãe, toda abrangente.

Como já vimos, que a Deusa e o Feminino era a expressão e estava completamente integrado com a natureza, por isso também vemos, as deusas primitivas ligadas diretamente com os animais e as forças da natureza, assim como também, como aquela que regia, dominava e controlava essas forças. Vemos isso, nas representações da Senhora das Feras, nas imagens junto de animais, ou até mesmo, segurando serpentes em ambas as mãos. A Deusa é toda a natureza. Assim, como ela também é o portal da vida, da morte e do renascimento, por isso, encontramos desde os tempos mais antigos até as mitologias mais recentes e por todos os lugares, histórias similares, onde a deusa dá a luz ao seu filho-consorte e onde, depois, para assegurar a fertilidade de Terra, este mesmo era sacrificado para ressuscitar novamente desde mesmo ventre que o consumiu. Vemos, isso, desde Inanna e Dumuzi, Ísis e Osíris/Hórus, Afrodite/Adônis e Perséfone e até no cristianismo com Maria e Jesus.

“Na arte do Neolítico, nem a Deusa nem seu filho-consorte trazem emblemas que aprendemos a associar ao poder: lanças, espadas ou raios, os símbolos de um soberano terreno ou deidade que consegue obediência recorrendo ao assassinato e à mutilação. […] O que aparece em todo lugar – santuários e casas, murais, motivos decorativos de vasos, esculturas, estatuetas rotundas de barro e relevos – é uma rica coleção de símbolos da natureza. Associados com a adoração da Deusa, são testemunho do assombro e admiração diante da beleza e mistério da vida. (Eisler: pág 59/60)

Cada Deusa que existe, existe porque é uma parte de você. Uma parte nossa. Cada mulher que existe, existe porque é uma parte de você. Uma parte nossa. Cada ser que existe, existe porque é uma parte de você. Uma parte nossa. Eu estou nos mitos. Eu estou na natureza. Eu estou nos lugares sagrados. Eu estou nas imagens das deusas. Eu estou nas mulheres. Eu estou em toda a parte.

Que assim seja,
Prazer, em mais uma vez, conhecê-la.
Ë só um reencontro.

 

Imagem: Aleah777 on DevianArt
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