A cozinha é o lugar de todo mundo! A cozinha é o coração e ventre de um lar. É nosso centro. Nosso ponto de encontro. A conexão. O que liga todas as pessoas que moram e que visitam um lugar. Por quê? Porque na cozinha encontramos diversas expressões e manifestações da presença do feminino. É um dos lugares que aprendi a cuidar com mais atenção e a manter nutrido, limpo e pronto para tudo. Coisa que não fazia antes. Deixava acumular louça e lixo…e isso apenas mostrava como algumas deusas estavam sendo mal-tratadas em mim, e como o lar estava abandonado. E é nessa hora que entra o lugar de mulher é na cozinha. E quando digo mulher, digo das filhas, das netas, das avós, das mães, das amigas, das irmãs e de todos os espíritos feminino que habitam em todos os seres, inclusive homens. Porque, como já disse, cozinha é lugar de todos que desejam nutrir o feminino e nutrir-se.

A cozinha é nossa lareira moderna, é onde a chama sagrada de Héstia queima e sustenta. É o vórtice. É o centro. É o ponto de sustentação de toda uma estrutura que cresce ao redor. A cozinha é o ponto onde todos vão se reunir em volta do fogo. Lembre-se dos altos papos que podem rolar em uma cozinha? De todas as vezes que você vai buscar algo para jogar/nutrir sua própria chama/fogo interior? Pois é….todos nos voltamos para Ela mais cedo ou mais tarde. É de lá que vem a nutrição e é lá que nos reabastecemos. A lareira sustenta tudo. Mantêm. Alimenta. Nutre. E nós precisamos nutri-la para que se mantenha forte. Héstia é quem mantêm um lar ou melhor, faz uma casa se tornar um lar. Porque uma coisa é bem diferente da outra. Ela cria aquele lugar onde todos querem estar: como um ninho.

A cozinha também é o lugar do grande caldeirão da deusa. Onde encontramos as velhas anciãs remexendo seus caldeirões de transformação, de poder e da mudança. É na cozinha e é da cozinha que vem as grandes transformações e onde colocamos em práticas as receitas das velhas anciãs das nossas famílias. É onde os fios das ancestralidades são tecidos e continuados. É onde encontramos as Moiras que tecem os fios da vidas. Tecem cabelos. Trançam cabelos. Trançam histórias. Desenrolam vidas. Abrem os livros das memórias ancestrais. Onde cozinhas vidas e mais vidas. Ouvimos histórias e mais histórias. Onde a voz da sábia anciã se faz presente em cada mulher, menina e fêmea que vem com suas mãos reproduzir as mágicas de suas ancestrais femininas. É o lugar onde todas as gerações se encontram.

A cozinha também é o lugar onde a chama de tríplice de Brighit queima alto e forte. Um lugar de cura. Um lugar de inspiração. Um lugar onde nos sentimos protegidos e acolhidos. Essa é a verdadeira cozinha. Onde encontro tudo que preciso para me curar. Onde a inspiração e o amor expressam-se através da comida. Onde sentimos que estamos protegidos pelo fogo nutridor e acolhedor. Onde tudo é possível. A cozinha é um lugar mágico, onde o tempo é outro. É o lugar onde vamos para prevenir e para curar. Lugar para manipular ervas, sabores e deleites. A cozinha é onde estão nossas maiores armas e onde podemos usar todas as ferramentas e exercer a cura. Em cada alimento. Para cada sentimento. Para cada necessidade. É a mãe expressando-se em sua fase curadora e feiticeira.

A cozinha também é o eixo onde tudo se move. O lugar onde a Deméter gira em torno para preparar seus alimentos preferidos e de onde sempre vem tudo que você precisa e conhece. É de onde vem o cheiro do bolo de fubá da avó, do chá da tarde que você compartilhava com suas tias, do almoço de domingo que sua mãe fazia questão que toda família comparecesse e do arroz que queimou na primeira vez que tentou cozinhar e acabou pedindo uma pizza mesmo. Ali estão todos os erros e acertos. Toda a fertilidade do pão que cresce e do broto que germina, dos alimentos que virão pratos indescritíveis e da simplicidade de uma fruta e de um suco até o acolhimento de um chocolate quente ou um chá antes de dormir. A cozinha é um dos reinos da Deméter que deseja manifestar sua abundância e fertilidade no poder de ver todos seus filhos e filhas nutridos e satisfeitos! Por favor, agradeça pela comida e esforços e diga o quanto aprecia sua comida. Ela agradece!

A cozinha também é o lugar da rainha da casa. Mesmo que seja para apenas supervisionar o que as demais deusas estão fazendo. Afinal, sempre é bom ter alguém que sabe onde e como tudo tem que ficar. É aquela que sabe o que cada um precisa, como e de que forma. É aquela que consegue olhar de cozinha para todos os demais cômodos e como mantê-los conectados e ver todas as necessidades atendidas. Até mesmo das visitas! Ah, como ela adora receber visitas e preparar festas e jantares! Venham! Venham todos! Porque a cozinha está aberta!

É desta chama sagrada que hoje se modernizou e tem muitas bocas, muitas formas e muitos meios. Mas, que no fundo continua igual! É a chama sagrada e um dos templos da deusa. É a chama que nutre. É o alimento que cura. É o ponto de encontro de gerações de mulher. É ali que todos nós deveríamos estar, cuidar e nutrir. Não é onde sua mãe deveria estar sozinha. É onde você também deveria estar. A cozinha é para nos lembrar que não precisamos ficar isolados em nossos cômodos e mundos, mas que podemos nos conectar, ajudar e somar. A cozinha é para nos lembrar do que perdemos. Das noites e tardes e manhãs que podemos passar ao redor do fogo, ouvindo e sendo ouvidos, estando juntos e sendo uma grande família, seja de sangue ou seja de laços. É onde eu não preciso estar só, onde todos podem se sentir acolhidos. Onde todos podem e devem participar. Onde as tarefas são divididas porque todos fazem parte. Onde um cozinha. Onde um lava. Onde um seca. Onde um guarde. Onde as pessoas que revezam para de suas mãos e de suas intenções fazer a mágica do amor tomar forma em alimentos e em acalentos. É onde a deusa também se manifesta. Onde a mãe se faz presente em seu aspecto nutridor, em seu aspecto acolhedor e acima de tudo, em seu aspecto de feiticeira e curandeira. A cozinha é para mim, é para você e é para todos.

Que cada dia, uma de nós escolha guardar a chama sagrada da deusa para que ela nunca se apague. Cabe a cada uma de nós: netas, filhas, mães, mulheres, anciãs, tias, amigas, e cabe a cada um de vocês: netos, filhos, pais, anciões, tios, amigos, primos…e a todos. Cada um de nós, em cada lar é uma guardiã e um guardião da chama sagrada das nossas lareiras e daquilo que faz nossas casas e lares terem vida! Somos nós que acendemos e mantemos vivas as chamas da Grande Mãe em nossos lares. Para quem assim, as mães em mim e em você sejam sempre reconhecidas, honradas e reverenciadas todos os dias, e estejam para sempre despertas em cada lar que escolheu acender um fogo e não deixar que se apague mais!

 

Imagem: essay
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