Entramos no Equinócio de Outono e de repente, começamos a sentir um ar mais gelado no ar. Aquela mistura de céu azul com friozinho. Aquela mistura das flores que iluminavam nossos dias com as folhas que caem no chão, ressequidas. Aquela mistura de algo tão intenso, tão quente, tão pungente, tão externo e tão extrovertido, que era o verão, para caminharmos em direção ao frio, ao contigo, ao recolhido e ao mais interno e introvertido de todas as estações que é o inverno. O equinócio de outono é um momento de transição. Momento onde a Deusa começa a sair do seu estado de abundância máxima, beleza e plenitude máxima, extroversão e compartilhar intenso e constante, para um estado, onde esta pele começa a cair. As cores intensas começam a se tornar um mix de tons da terra. Ao invés de vermos frutos e flores, vemos folhas e terra. Ao invés do calor e umidade, entramos na secura. E a deusa vai perdendo o seu brilho e seu arco-íris começa a se colorir com todos os tons mais pastéis. A deusa começa a caminhar de costas para o Sol em direção à sua caverna e a lua escura. A deusa, então mãe, então, amante, então senhora e rainha, desce do seu trono, coloca seus pés no chão e caminha sobre a terra. E conforme pisa e deixa para trás toda a celebração, as folhas começam a cair, o vento começa a soprar, a terra começa a secar, os dias começam a encurtar, o ar começa a gelar. Tudo ao seu redor começa a mudar. Porque Ela está mudando.

O convite do Outono é: Vamos mudar?

Sim, vamos deixar para trás. Vamos abrir mão. Vamos trocar de pele. Vamos desapegar do que precisa ser solto, precisa ser transformador, precisa ser encerrado. Porque a natureza toda está em processo de desapego. Deixando folhas, deixando frutos, deixando sua própria pele. Como uma cobra que se arrasta no solo, com sua nova pele exposta. Confiando, que se deixar ir, o novo poderá vir. O processo de desapego, é um processo de confiança e fé. Uma árvore não sofre porque suas folhas caem. Uma árvore não sofre porque seu fruto apodrece. Porque ela entende que isso faz parte de um processo circular. E o outono é parte desse processo! A Deusa, assim como nós, precisamos seguir adiante. Não dá para ficar no mesmo lugar, e como árvores, mesmo ficando no mesmo lugar, não dá para continuarmos as mesmas.

Tudo muda. Absolutamente tudo.

As formas. Os conteúdos. As intenções. Os relacionamentos. Os processos. A substância do que somos feitas. Tudo está sempre morrendo e renascendo. Desde nossas células até a natureza e todos os seres ao nosso redor. O Outono traz o aprendizado de seguir adiante. De sair de um lugar confortável, pleno e abundante, para o incerto. Porém, nos mostra, que tudo aquilo que conquistamos irá conosco em nosso interior. Agora é hora de confiar. De seguir a um rumo improvável, inconstante e atravessar. A ponte que separa o Sol e a Lua. O externo e o interno. O claro e o escuro. O Outono é onde os dois se mesclam. Por isso, sentimos mais instabilidade, oscilações de humor e até de energia. Estamos mais frágeis em nossa saúde e constituição. E isso se agrava, dependendo, da nossa resistência a mudança. Do quanto nos agarramos com unhas e dentes a àquilo que já soltou da nossa mão há tempos. Porque um dos aspectos da deusa neste período é o da Ceifadora. Daquela que sabe dos cortes que precisam serem feitos. Daquela que sabe que precisamos abrir mão dos nossos maiores apegos se queremos de fato fazer uma transformação digna do nosso caminhar. Daquela que sabe que precisamos seguir adiante. Que há muito mais a nossa frente. Que o passado deve ficar no passado e que ele não nos define, mas faz parte de quem somos. De que podemos mudar. De que vivenciar o luto, o pesar, o abandono, o deixar ir, os términos e o trocar de pele, é necessário para nosso crescimento. Que tudo isso pode ser vivenciado com mais entendimento e leveza, sem perder a profundidade.

A Deusa te convida para caminhar com Ela. Caminhar por esse Outono das nossas almas. Deixando cair nossa pele. Deixando ir nossos apegos. Deixando para trás o velho para abrir-se para um todo novo porvir.

E você, o que deixa para trás neste outono?

Imagem: Natalia Le Fey
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