Sempre que penso no Equinócio da Primavera, vem a imagem da Deusa Perséfone ascendendo do Submundo, e conforme ela vem subindo, suas vestes negras vão clareando, seus cabelos negros vão sendo adornados por flores de diversos tipos, a atmosfera ao seu redor que estava densa e pesada, vai se tornando leve e refrescante, cada passo que ela dá, faz com que vá surgindo grama aos seus pés, vai despertando e chamando os animais de suas cavernas e esconderijos, avisando que o céu está clareando, que as nuvens estão dispersando, que os pássaros estão cantando e que a vida urge! E que é seguro novamente sair!

Conforme Perséfone se aproxima mais e mais da superfície, o Sol começa a brilhar mais forte, para recebê-la com força total. Ele aquece o solo, aquece as folhas, aquece as flores, aquece e enriquece a vida que agora brota, com cada passo de Perséfone, querendo romper os limites que as separam da terra com a superfície. Perséfone começa a trazer consigo, pelas camadas mais profundas da Terra, toda a riqueza que nosso solo contêm. Com ela vem todo o poder da semente fértil, da nossa natureza criativa, todo nosso potencial de manifestação e realização.

Perséfone então, dá seus primeiros passos pela superfície da Terra, e todas as flores se abrem para cumprimentá-la.Todos os animais correm, dança, brincam e pulam de alegria! Afinal, faziam meses que não a viam. Faziam meses em que estavam na escuridão, no frio e no recolhimento, que também é necessário. Agora, todos se juntam em bando e se espalham pela Terra, conhecendo e reconhecendo os outros animais. Perséfone caminha e dentro dela, começa a surgir uma vontade de girar, rodopiar, saltitar e correr, sentindo o toque das plantas e flores em sua pele, soltando seus aromas inconfundíveis! Ah, como ela sentia falta de todas vocês! Vocês que também fazem parte dela!

É hora de dançar. É hora de explorar! O mundo está cheio de coisas novas que eu nunca vi antes. Vontade de conhecer cada canto. De cheirar cada encanto que minhas queridas flores contêm. Quero acariciar cada animal e descobrir suas naturezas, suas vozes e sua sabedoria. Quero me permitir andar pelo mundo a fora, sem rumo, sem direção, apenas focada na decisão de que a vida é muito boa, muito bela e muito rica, para desperdiçarmos um segundo sequer!

E, de repente, a presença e a chegada de Perséfone é sabida por todos! A presença da Deusa é sentida em cada ventre, em cada coração, em cada alma feminina, que sabe que Ela despertou. Que sabe que Ela voltou. Que sabe que Ela caminha entre nós novamente! Sua mãe se alegra! Suas amigas se divertem! A Natureza celebra! E o seu chamado é ouvido, como borboletas que voam em nossa barriga. Trazendo aquela antecipação de uma aventura que sabemos que terá um significado muito maior do que imaginamos.

Então, começamos a nos vestir com roupas leves e muito coloridas, porque podemos brincar novamente, até mesmo de nos vestir, como fazíamos quando éramos pequenas. Do que você de fato gosta? O que te faz sentir realmente confortável e bonita? Podemos ser mais espontâneas e flexíveis em nossas escolhas. Deixar os nossos cabelos cairem e sentirmos o vento passando por entre eles. Como é bom também ter os cabelos bagunçados! Como é bom sentir o vento e o calor em nossas pernas, em nossas costas e em nossos seios. É hora de sair e estar na natureza, passear pelas ruas, ir a lugares que você nunca tinha ido antes. A chegada de Perséfone é também o momento do chamado à aventura da heroína. E neste momento, você está sendo chamada mais uma vez, para uma nova aventura! Consegue se dar conta de qual é?

A aventura se mostra para nós, de diversas maneiras! Pode ser algo que sabemos que temos que fazer. Pode ser algo, que já estamos tempo demais postergando fazer. Pode ser algo, que vem e tira nosso chão e nos pede para começar tudo de novo e nos arriscar. Se tem alguma hora que é mais ideal para começamos, recomeços, nascer das cinzas e se arriscar de verdade, que não seja esse, eu desconheço! Porque a donzela-menina em você já está pronta! Ela já está com sua mochila nas costas, pronta para explorar o mundo. Para arriscar caminhos nunca antes explorados. Para ousar, para fazer diferente, para deixar o velho para trás e convidar um todo novo porvir que desponta a sua frente.

Perséfone, a donzela, a menina em nós, é como a carta do louco. Como quando estamos no ponto zero de tudo. Onde havia todo um passado que deixamos para trás e todo um futuro que ainda pode vir, mas, simplesmente nos deixar ficar nesse meio, neste vazio, neste espaço de puro potencial – onde tudo por vir a ser. E a natureza é assim mesmo. Quando Perséfone começa a deixar o Submundo e a voltar para a superfície da Terra, os campos mais profundos da Terra começam a se mexer. As sementes de puro potencial começam a se mobilizar. Todos os nutrientes e toda a riqueza contida no mais profundo da Terra começa a gerar vida. É por isso que Ela é àquela que traz as boas novas! Que traz à Primavera! Que traz o novo! Mas, que ao mesmo tempo, nos chama para agir! Nos chama para realizar! Nos chama para colocarmos nossas mentes, nossas vidas e nossa história em movimento. Não é mais momento de parar, de hesitar ou de recolher-se. É hora de sair. É hora de abrir a mente para nossas possibilidades. É hora de ver além do que você estava vendo antes.

É aquele momento de tensão do limiar da vida. Onde estamos no começo ou no final de algo. Ou quando estamos de frente ao desconhecido. Quando recebemos o chamado à aventura da heroína, quando Perséfone nos chama de volta à Primavera, é hora de se jogar em algo novo. De repente, aprender um novo idioma, conhecer novos países, fazer novos contatos, ir fora da sua zona de conforto, arriscar-se na sua carreira e vida profissional, estar mais em meio à natureza, fazer esportes ou atividades físicas, começar novas amizades, em um novo lar ou simplesmente ver a vida através das lentes da donzela-menina.

E, sim, essas lentes são cor-de-rosa! Porque a vida não precisa ser só preto-no-branco, ela pode ser multicolorida. Ela pode ser mais leve. Ela pode ser mais divertida. É hora de rir. É hora de se divertir. De cuidar mais para que sua vida não caia na monotonia, simplesmente, porque você se esqueceu que há uma criança mágica interior dentro de você. Que está doida para te levar para passear. Que está doida para que você se lembra dela. Do que ela gostava, do que a fazia rir, do que a fazia pular de alegria na antecipação de realizar um sonho. Quais são os sonhos dessa menina? Traga eles à superfície agora. Já não devem mais ficar escondidos na caverna da inanição. Perséfone é a menina, é a donzela, é a magia da vida também! E é essa faceta dela que recebemos agora em nossas vidas.

Portanto, o convite é aceitar esse chamado à aventura. Aceitar que também é parte de você a meninice, a espontaneidade, as risadas e aqueles momentos de bobeira, o assumir riscos, encarar o desconhecido, aventurar-se por reinos nunca antes experimentados, sair das cavernas metafóricas que nos mantêm seguros demais em nossa zona de conforto, mandar embora a rigidez e sisudez das nossas vidas – as coisas não precisam ser sérias o tempo todo, mas podem sim, manter-se a leveza da vida sem perder a maturidade aprendida com a bruxa-anciã nos tempos invernais da natureza e do nosso interior. Deixe sua menina sonhar. Deixe sua menina criar. Deixe sua menina pintar, dançar e celebrar a vida. Porque tudo isso é importante também, e o tempo que Perséfone passa conosco como Deusa da Primavera é limitado. Exatamente porque Ela tem muitas coisas para nos ensinar, e uma delas, é que não precisa ser uma coisa ou outra, mas sim, que podem ser as duas! Podemos e devemos aprender a ser inverno e internalizar o máximo do contato com nossa sabedoria inata feminina, para também, podermos saber ser Primavera e trazer essa dádiva recebida internamente, para compartilhar com o mundo.

Por uma Primavera mais colorida em nossas vidas.
Seja bem-vinda mais uma vez, Perséfone, querida!

Imagem: Josephine Wall
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