Há três coisas que precisam ser desenvolvidas, trabalhadas e fortalecidas no caminho do feminino, como três estradas que correm juntas e em paralelo simultaneamente nesta grande jornada que é a vida. Quando iniciamos a caminhada pela Espiritualidade Feminina iremos nos deparar com três grandes temas que irão desenvolver o Protagonismo, Soberania e Empoderamento Femininos. São distintos entre si e ao mesmo tempo são a mesma coisa. Porque o feminino é assim, inrotulável, inexplicável e incontrolável. Graças a Deusa!

ESPIRITUALIDADE FEMININA

As mulheres ao adentrar a senda da Deusa estão apenas fazendo um caminho de volta para casa, para o colo da mãe e para seu ventre acolhedor. Retornar é relembrar. Retornar é mudar uma chave e programação que seguíamos até então. É escolher ressignificar o que é ser Mulher e o que é Feminilidade. Retornar é quebrar padrões e abrir-se para o Divino Feminino.

Há muito tempo atrás as coisas eram bem diferentes. Nós mulheres éramos vistas de uma forma muito diferente e que honrava os dons que trazíamos ao mundo. Porém, chegou um tempo em que ouve uma grande ruptura e separação. Um momento onde deixamos de ser filhas da Mãe e do Pai, e passamos a ser apenas as filhas do Pai.

O que houve?

Muito, muito tempo atrás, em uma época onde o mundo era reinado pelos valores femininos, “a maior força física do homem não servia de subsídio para opressão social, guerras organizadas, nem concentração de riqueza pessoal nas mãos dos homens mais fortes. Tampouco servia de fundamento para a supremacia dos machos sobre as fêmeas ou de valores “masculinos” sobre os valores “femininos”. Pelo contrário. A ideologia prevalecente era ginocêntrica, ou guiada pelo feminino, e a deidade representada na forma de mulher”, explica belamente Riane Eisler em “O cálice e a Espada”. Porém os valor, ao longo do tempo foi mudando, tão completamente, que a imagem da mulher que era venerada e respeitada na maior parte do mundo antigo, e como as imagens de mulheres como meros objetos sexuais a serem possuídos e dominados pelos homens passaram a predominar apenas depois das conquistas androcráticas, complementa Riane Eisler. Ou seja, as coisas nem sempre foram como vemos e vivemos hoje. Ontem e antes era uma realidade muito diferente.

De forma muito breve, conseguimos perceber alguns dos fatores que contribuíram para a mudança de uma realidade para outra totalmente diferente. Friedrisch Engels, em “A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado aponta que o patriarcalismo surgiu, não da proeminência dos deuses masculinos como pensou Bachofen, mas sim da instituição da propriedade privada. É com a delimitação das terras que os homens vão exigir fidelidade sexual das mulheres, porque não aceitavam legar seus bens, obtidos com sangue e pela exploração do próximo, a um descentende que não fosse seu filho legítimo, suprimindo as liberdade femininas, ao tornar as mulheres presas a um casamento monogâmico.

Assim, acabamos deixando para trás tudo que nos significava e deixamos que nos disséssemos quem éramos a partir do ponto de vista androcentrado. Com a Glorificação do Masculino e então, toda a visão e sociedade voltada e androcentrada, tudo começou a girar em torno do macho e visto através de sua perspectiva. O macho que fornecia o sêmen para a fecundação, o macho que dava seu sobrenome para assegurar seus filhos, o macho que traz a vida materialista, a guerra, o valor através do que se faz e conquista, a vida sendo valorizada através do que se faz ao invés do que se é.

Assim, separamo-nos também das nossas mães, visto a importância e maior relevância que o macho tinha. A mãe já não era mais foco de nosso desejo, nem nosso modelo e muito menos algo que inspirávamos a ser. Isso, fez com que as mulheres começassem a procurar o apoio, suporte e adequação do Pai, para fazer parte, ser aceita e moldar-se através dos seus parâmetros.

Começamos a esquecer nossos próprios ciclos, nossos ritmos e quem nós verdadeiramente éramos para poder nos adequar a essa nova realidade, para ser aceita por esse Pai. Afinal, já não tínhamos mais uma mãe e uma referência. Ignoramos então nossos corpos para sermos iguais aos homens, e favorecemos nossas mentes. Fomos então, sujeitas aos tabus sexuais e assim, começamos a entender que o que antes era poder, era sujo, feio e responsável pela queda da humanidade, pelo pecado, pelo desvirtuamento dos homens.

De repente, as normas masculinas tornam-se padrão de liderança, autonomia pessoal e sucesso em nossa cultura, aponta Maureen Murdock em seu livro a “Jornada da Heroína”. Tornamo-nos as Filhas do Pai, e buscamos não mais por mulheres que nos inspirem e guiem, mas sim, por mentores e homens, com dificuldade, muitas vezes, de aceitar suas ordens e ensinamentos. Será que algo dentro de nós quer nos dizer algo? Quer se rebelar contra algo? Enquanto isso, saímos pelo mundo, sem mães, buscando e procurando pela aceitação paterna e por conquistar o mundo, ao invés de sermos dependentes como nossas mães. Sendo assim, as mães/mulheres tornam-se as vilãs e foco de chacota, de ofensas e de brigas. Rompem-se também, os laços entre as mulheres que por tantos anos foram cultivados e que nos nutriam acima de tudo. Afinal, quando as mulheres estão juntas, liberam o hormônio do amor, a ocitocina, que é capaz de forças de cura indescritíveis. Quando em dor e amor, as mulheres tendiam a procurar umas as outras.

Modelando-se no Pai e mentores masculinos, não tinha ideia em como pensar como uma mulher com um corpo feminino, ou como identificar-me com outras mulheres, em reconhecimento de sua posição como mulher em uma sociedade patriarcal, aponta Maureen Murdock.

Mas essa nova sociedade não valorizava o sentir e nossas emoções, pelo contrário, ela dizia que isso era sinal de descontrole, de fraqueza e mostrava que as mulheres não podiam ser confiáveis, porque nunca poderíamos saber como iriam estar. E para provar que podíamos sim estar entre homens, ao lado deles ou sendo adorada por eles, começamos a reprimir nossos sentimentos e a suprimir a menstruação e evitar a gravidez, para poder alcançar um poder (masculino) que nos colocaria como igual. E dessa maneira, escondemos o que é feminino dentro de nós para não nos atrapalhar e incomodar durante nossa “estadia” no mundo dos homens. Um mundo tão androcentrado, que faz com que deixemos de sentir, ver e responder a ele através do fluir e ciclicidade feminina, para responder através da linearidade da estrutura Solar dos homens.

O sistema no qual vivemos não confere honra ao modo masculino de sentir, nem ao modo feminino de sentir. O sistema de dominação industrial determina como as coisas se passam conosco no mundo dos recursos, valores e fidelidade; que ani- mais vivem e que animais morrem, e como as crianças são criadas. E no sistema de dominação industrial não há rei nem rainha, pontua Robert Biy. Perdemos a coroa, abrimos mão do nosso trono de direito e seguimos as costas de um Rei que também está ferido. Pois, ainda citando Robert Biy, o patriarcado autêntico faz baixar o sol através do Rei Sagrado, dentro de todo homem e mulher daquela cultura; e o matriarcado autêntico faz baixar a lua, através da Rainha Sagrada, para toda mulher e todo homem daquela cultura.

Por enquanto, estamos distante dessa realidade. Estamos encerradas, escondidas por trás de uma armadura que nos protege do patriarcado, mas que ao mesmo tempo nos aprisiona nele. Nos tornamos, o que Maureen chama de a Amazona Armada. Onde deixamos para trás, escondido bem lá no fundo, os sentimentos femininos, a espontaneidade de viver no presente, nossa criatividade e intuição, e relacionamentos saudáveis com nossos ciclos e corpo, em detrimento do perfeccionismo, do poder e da conquista pela igualdade. Mas, não percebemos o quanto de nós foi perdido no caminho.

Tornamo-nos viciadas pela perfeição. Sim, perfeição. Algo que nunca será atingido, mas que buscamos constantemente e no lugar errado. Porque ainda buscamos a aprovação do Pai. Buscamos o sucesso e poder através da mente e de iguala-se aos homens em seu mundo, em busca de uma aceitação e poder igualitário que nunca virá enquanto a perspectiva for sexista, sempre terá algo faltando. Buscamos o corpo perfeito e eternamente jovem, porque o homem desvalorizou e tachou a anciã de maléfica, bruxa de inútil, então, não podemos envelhecer, temos que ficar congeladas no tempo. Buscamos viver de forma linear e sempre fazendo algo, vivendo em um ritmo que é solar e masculino, e esquecemos quem somos. E, acabamos vivendo papéis isolados e congelados no tempo, para sempre donzelas ou mães, porque os demais papéis assustam ou incomodam. E deste forma, deixamos de ser mulheres integrais e a sociedade, inclusive o homem, sai perdendo com isso.

Para concluir, temos que entender que a androcracia não pode atender nossas necessidades por causa de sua ênfase nas tecnologias de destruição, sua dependência da violência para o controle social e em função das tensões engendradas inevitavelmente pelos modelos de relações humanas dominador/dominados sobre o qual se baseia, conclui Riane Eisler.

Como encontrar minha identidade no mundo do Pai?

Polly Young e Florence Wiedemann, em “Female Authority” comentam que o reconhecimento que os homens são “pessoas masculinas” sem mágica de poder ou autoridade intrínseco ao seu gênero é necessário para que a mulher pare de competir com os homens, precisar de aprovação de instituições masculinas ou depreciar outras mulheres por suas adaptações. Com essa consciência, começamos a nossa jornada de volta ao lar, para uma casa onde tanto o Pai quanto a Mãe podem habitar, em harmonia e em perfeito entendimento. Cada um contribuindo com seus ensinamentos e com a parte que lhe cabe. Porque somos a parte deste todo que eles compõem.

EMPODERAMENTO FEMININO

A grande sacada do Empoderamento Feminino é algo que digo sempre para as minhas aulas e especialmente para quando trabalho com as gestantes é a apropriação do seu corpo e isso engloba muitas coisas! Desde entender e seguir os movimentos cíclicos internos do ciclo menstrual e usar o poder de cada fase para manifestar seu melhor e fazer aquilo que é mais natural e adequado para cada diferente momento, assim compreendendo que existem pelo menos 4 expressões femininas dentro de nós ao longo desse processo. Ao nos reapropriarmos disso, estaremos nos apropriando do nosso corpo, da nossa sexualidade, da nossa fertilidade, criatividade, intuição e sabedoria. Tudo de uma só vez. Ao vivenciarmos nosso corpo, nossa fisiologia e assumirmos nossa natureza cíclica e lunar, estamos voltando à algo que foi há muito tempo esquecido. Ao fazermos isso, entendemos que dentro de nós estão todas as faces do feminino, toda a Magia e Mistérios da Lua e toda a abundância e riqueza da Natureza. E que somos as Guardiãs dessa Sabedoria, em nosso corpo e em nossas vidas. Quando fazemos isso, nos fortalecemos. Porque nos conectamos profundamente e verdadeiramente com nosso Feminino Essencial e conseguimos expressar nossa natureza mais autêntica. Dá força. Dá poder. Dá paz. E é só o começo…porque mulheres empoderam umas às outras.

DIREITOS DAS MULHERES

Uma outra face disso tudo, e que advêm do reconhecimento do nosso valor pessoal, assumir o protagonismo da sua história e ser a heroína da sua vida, é perceber que você precisa lutar pelos seus direitos como mulher e que ao fazer isso, está lutando por todas as mulheres ao seu redor: conhecidas e desconhecidas. É uma luta de irmandade e de verdade. Quando me aproprio do meu corpo, eu naturalmente vou lutar pelo que é meu direito sobre ele. Isso engloba todas as nuances do feminino. Autonomia e Direitos reprodutivos, de gênero, sociais, trabalhistas, sexuais, maternidade, gestação, parto, para que assim, estejamos livres de todas as violências sejam físicas, psicológicas, sexuais, econômicas, obstétricas, trabalhistas, domésticas e também midiática (chega de sermos objetos em todas as propagandas ou prêmios, entre outras coisas), e inclusive das futuras gerações, para que cresçam livres disso tudo!

Uma mulher que está conectada com a fonte do Divino Feminino, que se empoderou e apropriou-se do seu corpo e da sua natureza cíclica, é uma mulher que busca sua autonomia e seus direitos em todos os níveis e de todas as formas, e ao fazer isso, faz por todas as mulheres de todos os lugares. Porque juntas, formamos uma imensa rede de proteção e acolhimento das nossas necessidades em comum e respeito à nossa natureza divina feminina que precisa ser compreendida, respeitada e fortalecida, para que possamos ser tudo aquilo que desejamos ser, livre de rótulos, livre de julgamentos e livre de medo.

É isso que eu desejo para mim,
É isso que eu desejo para você,
É isso que eu desejo para nós.

Que sigamos na trilha juntas. Caminhando por todas àquelas mulheres que já passaram por tudo isso. Caminhando com todas àquelas que decidirem seguir essa trilha de volta para casa juntas. Caminhando por todas às futuras gerações. Porque a maior bênção de uma mulher para a outra e para toda a humanidade é curar-se, ser livre e soberana. Uma mulher que se empodera de suas asas é uma mulher que liberta às outras!

Namaste,
Blessed Be!

photo: Bedeli Buttlan

por Ana Paula Malagueta

Copyright © Todos os direitos reservados.

ATENÇÃO: A reprodução parcial ou total deste texto é protegida por LEI.

Para usar este texto entre em contato com a autora.

Pin It on Pinterest

Share This