Estamos em um tempo onde tudo se manifesta e espalha-se como um vírus. De repente, olhamos para todos os lados, e em todos os lados, vemos a mesma coisa. Ou, o que parece ser a mesma coisa. Porque nada nunca é o mesmo. Hoje, ouvimos por todos os lados, a existência de Círculos de Mulheres, workshops dedicados ao Sagrado Feminino, ao Empoderamento Feminino, as mulheres. Isso não é bom nem ruim. É o que é. Uma realidade. Não me interessa aqui, julgar ou dizer se algum trabalho ou alguém é melhor ou pior. Isso não é importante. O que é importante é irmos além do que vemos. Além do que ouvimos. Além do consumo fast-food e abrir os olhos para esse mercado que está lucrando cada dia mais com a ideia do feminino e do vulgo “despertar das mulheres”. Hoje, tornou-se lucrativo, tanto para a mídia, quanto para muitos, falar de Sagrado Feminino, tratar de Empoderamento Feminino, conduzir Círculos de Mulheres e vivências do Sagrado.

Por um lado é excelente porque é tempo onde muitas coisas que não eram faladas, agora são pautas diárias. Coisas que não eram vistas, estão escancaradas para quem quiser ver. Hoje, as mulheres estão em um incrível levante. Estão saindo das suas conchas, cavernas e lugares seguros, mas que não eram tão seguros assim, para falarem e para terem suas histórias ouvidas. E isso é louvável. Hoje, as coisas já não estão mais deixadas de lado e também, nem tão impune assim. A mobilização de uma rede social, pode ser incrível para nossa causa, tanto individual quanto coletiva. Porém, por um outro lado, podemos ficar patinando na superficialidade das coisas. Movimentando-se apenas no exterior de tudo. Tocando apenas o raso de um mundo que precisa que mergulhemos de cabeça para realmente entender o que é. Não basta falar. Não basta fazer show. Não basta vestir-se de Deusa. Não basta encenar. Sabe por quê? Porque esse é um caminho que deseja, acima de tudo, que as mulheres sejam protagonistas de suas histórias. E para tal, elas precisam realmente vivenciar e se entregar ao personagem, e ir fundo, bem fundo, até mesmo, bem além desse personagem. Para descobrir, que tipo de protagonista de fato ela é.

Afinal, que diabos é esse Sagrado?

Palavras tem força, tem energia, tem significado e sim tem poder. Não podem ser banalizadas. Tem que ser bem ditas e bem colocadas somente quando necessárias. Na raíz de cada palavra, encontramos sim, a verdade e a manifestação da sua expressão ao ser evocada, citada e compartilhada. Sagrado, entre muitas definições, quer dizer aquilo que pelas suas qualidades, merece respeito profundo e veneração absoluta; que não se deve infringir que é inviolável. Todas essas definições cabem muito bem na intenção por de trás dos movimentos atuais, sejam eles quais nomes levem, em pról do feminino e das mulheres, em todas as suas variações e cores do feminismo e movimento de círculo de mulheres. Mas, uma coisa é o que escrevemos e divulgamos e outra é o que fazemos. Porque em meio a muitos shows, egos pessoais e marketing, há o contrapasso da profundidade e transformação real que aquilo pode te levar. Há sim, ainda, muitas violações e muita falta de respeito aliada à manipulações e tirar proveito da fragilidade alheia, mas há também, muita força, muita verdade e muita busca sincera, daquilo que sempre foi nosso, daquilo que nunca foi violado e daquilo que sim, merece respeito profundo. É neste ponto que temos que chegar. O respeito profundo ao Sagrado, de verdade, de coração, corpo e alma. E isso, tem que se fazer sentir em tudo que fizermos. Porque por detrás da palavra, há algo que ela precisa nos ensinar. Deixemos então, que o Sagrado nos ensine!

Porém, o sagrado não pode estar separado de todo o resto. O sagrado não pode ser tornar algo intocável, inatingível e especial. Porque, se for assim, já se tornará distante de nós. Já faremos uma separação. Então, aquilo é sagrado, aquilo não é. Meu sagrado é melhor do que o seu. Aquela lá não faz nada sagrado, só fala. Usa as palavras com descaso, sem apreciação pelo que de fato traz. E ficamos assim, na corda bamba do juízo de valores alheios, todos, desconectados do Sagrado. Porque enquanto estamos olhando para a grama do outro, estamos deixando de ver a manifestação do Sagrado em nossa própria grama. Porque o Sagrado está naturalmente em tudo que é. Porque o Sagrado é uno com a própria manifestação da Divindade. Onde a Divindade toca, o Sagrado toca. E quanto nos damos conta disso, tudo se torna sagrado, porque viver o Sagrado, é mudar a forma de ver e viver as coisas, as relações, as experiências e a própria vida. É um entendimento. É como se andássemos em um tempo diferente. Um tempo sagrado. Um momento sagrado. Uma natureza sagrada. Uma existência sagrada. Onde para tal, precisamos nos abrir para permitir que o sagrado entre. Porque quando estamos distantes deles, em um estado de separatividade e rotulação, ficaremos à margem da sacralidade. E veremos tudo como sagrado x profano. Onde tenho que estar em algum lugar especial, com roupas especiais e em circunstâncias especiais para viver o sagrado, e assim, estarei limitando-o. Para abrir-se ao sagrado, precisamos nos abrir diariamente para reconhecê-lo em tudo que eu encontrar. Assim, torno cada momento sagrado, sem precisar de nada a mais para vivê-lo.

Empoderamento Feminino, Círculo de Mulheres, Sagrado Feminino, blá-blá-blá…

Eu já escrevi exaustivamente sobre esses termos, que já estão tão batidos, que precisam ser pendurados em um lindo varal ao sol para secar um pouco. É preciso arregaçar as mangas e ir muito além de onde as palavras podem nos levar. Precisamos realmente fazer, realizar, iniciar, construir nossa jornada da heroína. Porque é somente ela que irá nos levar em algum lugar. À verdadeira busca pelo Graal Sagrado, por aquilo que é, que ali sempre esteve, mas, que para nos darmos conta, precisamos encarar nossas sombras, enfrentar nossos dragões internos e monstros mais horríveis, precisamos ir além das nossas mentiras e ilusões que construímos para sobreviver. Precisamos assumir a vida. Ir atrás da realidade. Construir nossa história pessoal. E isso só irá acontecer se dermos os primeiros passos e continuarmos a caminhar! Porque não é em apenas em um final de semana que iremos realizar um trabalho profundo, por mais boa intenção que possamos ter. Em um final de semana, em um encontro, depositamos uma semente e ela vai precisar de tempo para crescer, ela vai precisar ser nutrida, ela vai precisar ser acolhida, alimentada e vai precisar passar por diversas etapas até tornar-se uma bela árvore. Porque dentro de cada mulher há uma bela árvore pronta para despontar.

Esse é um dos pontos mais importantes. O tempo. Onde quer que vamos. Seja qual for o trabalho que realizamos, ele traz consigo a presença de Saturno. O Senhor do Tempo. Porque sem ele, nada vem para a realidade, nada se concretiza, nada se solidifica. Saturno é um grande mestre, porque ele nos mostra a real. Ele é o compromisso que assumimos. Aquele caminho que precisamos realizar com paciência, perseverança, presença e paz. Porque para realmente viver o Sagrado Feminino, ter e ser empoderada e estar conduzindo um círculo de mulheres ou qualquer trabalho realmente impactante e transformador, precisamos sair da lenga-lenga. Isso não leva ninguém à evolução, à transcendência ou sequer à libertação alguma. Enquanto for só flores, não iremos amadurecer. Enquanto não estudarmos de verdade, não soubermos ensinar ou aprender realmente, nada sai do lugar. Aquele click interno, não acontece. Enquanto não confrontarmos às mentiras, os vazios, as dores, as perdas, as ilusões, as máscaras que carregamos, os personagens que vivemos e tudo aquilo que foi esquecido, silenciado e negligenciado, não chegaremos a lugar algum. Aliás, ficaremos naquele lugar comum.

Aquele limbo. Aquele bosque das fadas que é citado em Brumas da Avalon. Achando que tudo é paz e amor, quanto na verdade, tudo é bem desértico e bem doloroso. Precisamos aprender a fazer isso por nós mesmas primeiro. Nossas buscas pessoais diárias. Viver. Experienciar. Questionar. Ir atrás. Querer ser mais. Colocar as coisas em prática. Errar e acertar. Desistir e chorar. Descabelar-se e desesperar-se. Enfrentar nossa própria aridez. Reconhecer toda a violência e todas as tramas femininas da nossa ancestralidade. Olhar para as mulheres do nosso mundo. Vivenciar os círculos de mulheres internamente com as deusas, com a luz e sombra, com seus arquétipos, seus mitos e seu cenário e história interior. Vivenciar os círculos de mulheres em sua vida diária. Em sua casa. Em todos os lugares. Olhar para o Sagrado que está em todos os lugares, inclusive na natureza e dentro de ti. Naquele que você odeia e naquele que você ama. Que não posso excluir batalhas e escolhas das mulheres, só porque elas são diferentes das nossas, porque senão, meu discurso de Empoderamento já torna-se hipócrita e mentiroso. Devemos buscar a coerência dentro de nós. Encontrar nossa verdade. Estarmos verdadeiramente nua para nós mesmas.

Nada vai acontecer de uma hora para outra. Tudo vai acontecer com o tempo. Com o nosso comprometimento. Com o tamanho e profundidade da nossa busca. É preciso estudo. É preciso conhecimento. É preciso diversos pontos de vistas diferentes. É preciso atravessar o Vale das Sombras interior. É preciso sair e ir além dos próprio umbigo e convicções. É preciso renovar, rever e reavaliar (um pouco de mercúrio retrógrado falando) nossas crenças e paradigmas. É preciso olhar para nossa história e biografia humana (termo da Laura Gutman). É preciso olhar para as outras mulheres além de nós. Mas, é acima de tudo, preciso olhar para nós, olhar para dentro, ir para dentro e nos atravessarmos, até sairmos de dentro de nós. É preciso… Não como obrigação, mas como um convite a disciplina, bom uso da força de vontade e da nossa atenção, para realmente fazermos algo acontecer. Nada irá cair do céu e ninguém pode fazer esse caminho por você.

E não é que tudo vai melhorar, não. Mas, tudo vai se tornar mais honesto, mais verdadeiro, mais maduro e acima de tudo coerente. E é nesse espaço, neste lugar, neste altar que vamos preparando, lapidando e forjando, que iremos sim, colocarmos o Sagrado, expressarmos o verdadeiro Empoderamento e receber outras mulheres, para ajudá-la a crescer, a aprender, a se fortalecer, a se conectar e a empreender essa viagem tão dura e árdua, mas tão necessária. Porque é só atravessando os espinhos das nossas dores e ilusões, e das falsidades gramaticais, que iremos encontrar verdadeiramente o movimento de Despertar Feminino e ali, minha querida, é onde a Mágica Acontece. É onde os Mistérios habitam.

Imagem: Helen R. Klebesadel
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