As tradições e saberes do feminino eram passados desde a infância e ao longo da vida de uma mulher. Muitos eram os ritos de passagem que preparavam e celebravam as novas fases pelas quais a mulher passava, como a menarca, a gestação, a menopausa e também, todos os conselhos que eram partilhados entre mulheres, quando estas reuniam-se em suas tendas vermelhas para menstruarem, parirem e simplesmente estarem juntas, passando adiante ensinamentos primordiais.

Hoje, estamos em um movimento de voltar nossos olhares para essas antigas tradições, respeitando uma vez mais, os antigos saberes e desejando saber mais sobre aquela que era nossa cultura feminina e nossa forma de praticar espiritualidade. Estamos querendo saber novamente sobre tudo aquilo que era nossas práticas, nossos movimentos, nossas falas, nossos conhecimentos e nossas formas de ver e viver no mundo.

Por vivermos em um mundo artificial e tecnológico acabamos esquecendo daquilo que é natural, daquilo que é simples e acima de tudo da natureza. Com isso, esquecemos o ritmo natural das coisas, deixamos de olhar para o céu e perceber que a Lua sempre muda, está sempre diferente e tem fases e ritmo, assim como a natureza, tem suas estações, tem seus fluxos e tem suas organizações. Era para essa mesma Terra, era para esse mesmo Céu, era para esse mesmo tudo que a natureza pode oferecer, que nossas ancestrais olhavam, guiavam-se e honravam diariamente, dentro e fora. Essa é uma das formas de paganismo, de estar, viver e fluir junto com a natureza ao seu redor. Porque aquilo que está fora está dentro e o que está dentro está fora. Não há separatividade.

Como vivia-se em sintonia pela exposição e constante interação com tudo ao redor, era muito mais fácil entender a ciclicidade da vida e perceber que nós mulheres somos cíclicas como a Lua e com a Mãe Terra. Através dessa observação e reflexão, os saberes femininos eram cultivados como a terra era cultivada e sua experiência era passada pela linha de ancestrais maternas. Assim, as meninas tinham uma vida toda para aprender sobre seu corpo, suas energias, como usar seus dons, as medicinas da terra para se cuidar naturalmente, e como cada rito de passagem iria trazer uma oportunidade de transformação e crescimento.

Uma menina então era preparada pelas mulheres para menstruar, para entender as energias do seu corpo, como viver com elas e o que isso significaria. O mesmo acontecia para a sua primeira relação e vinculação com seus relacionamentos, com a gestação e parto, aprendendo a compreender o que são as transformações do corpo, o que ele é capaz de fazer, ao que deve-se preparar e como integrar-se com a sabedoria do bebê, desta alma que escolheu compartilhar essa jornada com você e vir ao mundo através de você. A maternidade então era vivenciada, muitas vezes, em conjunto com outras mulheres. Sendo que a própria mulher, que agora é mãe, muito já compartilhou de outras mulheres antes, já viu, já presenciou, já sentiu, tudo que uma maternidade é. Assim, como acompanhou perdas, conquistas, separações, lutos, risadas e as mulheres tornando-se velhas sábias. Tudo estava ali, exposto o tempo todo. Toda a ciclicidade do feminino. Todas as suas mutações. Todas as suas mudanças. Todas as potencialidades, capacidades e facetas de uma mulher. Haviam todos os tipos. Todos os gostos. Todas as formas. Todas as dimensões que o feminino poderia alcançar. Ali, o tempo todo. Porque o feminino é assim, está sempre ao nosso redor.

E vejo como isso é importante. Porque hoje, as meninas entram na menarca sem qualquer preparação. As mulheres que engravidam tem apenas 9/10 meses para aprender tudo que precisam sobre a gestação e o parto. Sem sequer dar tempo de descobrir o que será a maternidade. As mulheres na menopausa chegam a temer essa fase, como as que menstruam temem quando veem-se menstruadas. As mulheres transam. As mulheres sangram. As mulheres parem. As mulheres deixam de sangrar. As mulheres amamentam.As mulheres seguem sendo mulheres, mas em um mundo que está completamente árido e linear e que não acolhe ou sequer entende que elas são redondas, fluídas, circulares, mutantes e que tem mil faces. Ao invés de recebermos o conhecimento aos poucos ao longo da vida, para ir desabrochando em seu tempo, vivemos em correria tentando em tempo recorde resgatar tudo aquilo que já é nosso de direito desde o dia em que nascemos.

Como estamos com nossas mãos vazias, com as nossas tendas solitárias em uma selva sem a luz natural da Lua e sem a riqueza da diversidade da Mãe Terra, e sem nossas irmãs mulheres, acabamos em um ato desesperado partindo para uma atitude de controle e domínio das nossas experiências, que é uma única forma de sobreviver. Por isso, que muitas vezes, acabamos sofrendo com nossas menstruações, em nossos partos e maternidade e na menopausa tão árida, porque estamos sozinhas sem o apoio das nossas irmãs, das mulheres das nossas famílias e convívios e carregamos um feminino que teve sua tenda cortada ao meio e jogada aos ventos. Somos filhas perdidas da mãe e da nossa tribo, e isso torna todas as experiências do feminino dolorosas, porque nossa corpo sangra, chora e grita como um uivo preso no peito, como um gemido atravessado em nosso útero e como uma visão que lembra aquilo que tivemos, com lástima e anseio.

Ansiamos umas pelas outras. Ansiamos pela possibilidade de restaurar nossa conexão perdida. Ansiamos pela cura dessa separação que não precisa mais ser vivenciada. Ansiamos pelas reuniões e momentos em círculo com outras mulheres, ouvindo sobre os amores e dores que compartilhamos todas. Aprendendo novamente sobre nossos corpos e sobre a natureza feminina. Vivenciando os rituais da nossa espiritualidade feminina e honrando as Deusas e as Divindades Femininas que nos representam, que nos mobilizam, que nos acolhem em suas expressões tão diversas como nós. Porque todas nós merecemos fazer as pazes com nossos corpos e com as outras mulheres, todas nós precisamos da presença da deusa em nossas vidas e todas nós necessitamos do convívio uma com as outras.

Resgatar o elo perdido com as tradições, culturas, saberes e medicinas das nossas ancestrais. Para podermos menstruar, gestar, parir, maternar, envelhecer e viver nossas vidas com mais sincronicidade, entendimento e respeito às nossas necessidades como mulher, e acima de tudo, como fêmeas. Só quando voltamos a entender que somos cíclicas e que a vida de uma mulher não é controlável ou sequer planejáveis, que iremos estar mais leves. Percebendo que temos um ritmo próprio natural de cada uma, que é mostrado pelas fases da lua interna, que passamos por diversas estações da vida, que a gestação tem seu tempo próprio, que um bebê no ventre está em perfeita sincronia com a necessidade de sua experiência como alma, que a maternidade é adentrar o caos e que no cerne deste caos, a mulher pode encontrar a verdadeira paz que vem de fazer as pazes e entregar-se totalmente a viver cada instante como único e presente. Que a menopausa não é o fim, mas sim o começo de uma nova história. Que o feminino é circular. Ele não tem início e nem fim, mas tem um meio onde podemos dançar ao redor das fogueiras que nos unem, que podemos ensinar e celebrar nossa vida em todas as suas formas e vivê-la sem pensar que algo está faltando ou pela metade, que podemos ser tudo e qualquer coisa, porque as cores do feminino são tantas quantas deuses existem nas mais diversas tradições.

É hora de nos lembrarmos. Por nós. Por todas nós. Porque uma vida feminina é uma vida de tribo. De comunidade. De irmandade.

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