EM BUSCA DO VERDADEIRO SACRO-OFÍCIO

Nos dicionários, encontra-se com muita facilidade, algumas significações para a palavra sacerdotisa. Todas referem-se à mulher que conduz rituais religiosos, especialmente nas religiões pagãs, uma mulher que é considerada líder de um movimento, e no Cambridge Dictionary, por exemplo, destacam até que é uma mulher que cumpre os deveres rituais em algumas religiões e “que não é cristã”. Porém, o mundo hoje mudou e é outro, e vemos por aí, novas formas de lideranças femininas algo que é bem diferente de ser sacerdotisa. É muito fácil intitular-se uma Grã-Sacerdotisa de um grupo e/ou movimento ou mestras/gurus, e uma outra coisa bem diferente é de fato você sê-lo de corpo, alma e espírito.

Ainda mais, visto que no mundo antigo, ser uma sacerdotisa era algo passado pela linhagem materna e até mesmo, era necessário fazer parte de uma determinada tradição ou escola mística, para como neófita passar por todos os degraus e etapas de uma iniciação profunda de busca, autoconhecimento, autorrealização e então profundo comprometimento com o caminho do sacerdócio. Porque de fato assumi-lo não é tão pop assim. É sagrado. É entrega. É total fé. É confiança. É compromisso. É respeito. É humildade. São tantas as coisas, que estão muito além de um título, um nome ou uma necessidade muitas vezes, que vemos por aí, de pessoas que simplesmente o fazem porque buscam seguidores, séquitos e pessoas “necessitando” constantemente estar na “barra de suas saias”. Há muitos sacerdócios que servem apenas ao ego. Fiquei muito impressionada, com a última temporada do Orange is the new black, é isso acontecendo de uma forma ou de outra com uma das personagens que virou quase uma messias. É aquela coisa: passam tanto tempo dizendo que você é milagrosa, que você fez isso ou aquilo e te chamando de mestre/sacerdotisa, que um dia até você acredita!

Porque no final é muito fácil “aproveitar-se” de quem está emocionalmente, fisicamente e espiritualmente debilitado ou carente. Mas, a lei kármica nunca falha e aquilo que fazes ao outro, voltará triplicado para você. Portanto, o sacerdócio tem que conter, necessariamente, a pureza e nobreza do coração, e acima de tudo, a entrega para ser um canal para as forças mais elevadas do que nós. Perceba, que o direcionamento não é egoísta, mas sim, completamente altruísta, porque serve a um propósito maior. Confia-se nas forças que nos inspiram e às quais oferecemos serviço.

A sacerdotisa que se entrega de corpo e alma a essa jornada é àquela que ouviu o chamado (de verdade, sem esquizoterice) e preparou-se para estar a disposição do serviço. É necessário fazer concessões e acima de tudo é necessário viver aquilo que escolheu como “representante” ou como canal de conexão. A sacerdotisa é aquela que está entre os mundos e que portanto serve como meio. De nada adianta servir de formar vazia, falando algo que não vive de verdade, ou vivendo apenas para manipular como bem entender. Porque mesmo a manipulação é vazia, porque é uma carência e ao mesmo tempo uma prepotência. E ao fazer isso, comete um dos maiores pecados que é a hybris, que é quando a pessoa passa a acreditar que é aquela divindade e equivale-se a ela. É o que eu chamo do mal da necessidade de “sentir-se especial”. Isso, é algo que faz com que cruzemos para o lado errado do fio da navalha. A pessoa pode começar com um propósito super puro, porém, o poder é tão sedutor que a faz deslizar para o mundo das sombras da ignorância e insolência. E então, vemos grupos/movimentos sendo liderados de forma a não-libertar as pessoas mas sim a aprisioná-las por diversas formas que são mascaradas por regras ou dizeres de somos os melhores, somos os mais corretos, somos únicos. Caímos na pegadinha e na rede dos falsos gurus. É uma puta responsabilidade, conduzir um trabalho com coerência, discernimento e respeito às forças com as quais você trabalha.

Eu tive a infelicidade, ou felicidade de cair em dois lugares que eram seitas disfarçadas e que tinham um discurso muito parecido com pessoas à frente segurando um bastão de forma bem equivocada e sombria. Segurando as pessoas lá dentro com falsas promessas, ameaças disfarçadas de adulação, conteúdos vazios mas mascarados com belos espetáculos e sempre tendo sexo, status e dogmas (mascarados de liberdade) envolvidos. Um dos primeiros artigos que escrevi na minha vida, foi exatamente sobre isso, em um formação de Yoga com o querido professor Pedro Kupfer, você pode lê-lo na íntegra aqui: Crescendo Além dos Condicionamentos.

Mas, graças a Deusa, e a seleção natural da vida, essas coisas não permanecem impunes por tanto tempo. Mais cedo ou mais tarde as máscaras vão caindo. Porque a Deusa merece mulheres e líderes verdadeiras, honestas e sinceras como suas disseminadoras aqui na Terra. Precisa de pessoas de muita boa fé que estejam dispostas a apenas ser um canal de inspiração por onde céu e terra se encontram, por onde a Deusa age, com humildade e convicção. Por isso, tão importante a nobreza de coração e acima de tudo, estar em trabalho constante e manutenção diária, aplicando constantemente aquilo que se propôs. Lembrando que são humanas e que não são perfeitas, e que o Sagrado e a Deusa estarão por todas as partes e em todas as áreas de nossas vidas. E acima, de tudo, que é a Deusa que te coloca no caminho do sacerdócio, e que isso não faz de você a escolhida (não no sentido de ser especial e iluminada), mas sim, que terá que cumprir seu papel, muito bem feito enquanto viver. Transformando sua vida em um sacro-ofício.

Ainda bem, que temos espalhadas pelo mundo, lúcidas e verdadeiras líderes femininas de todas as raças, crenças e religiões, hoje, fazendo seu trabalho de forma verdadeira e honesta. E muitas delas, nem são conhecidas. Porque não é isso que importa, uma imagem, mas sim, o poder por de trás do trabalho, que irá falar por si só e manifestar apenas bem-aventurança por onde passar. Porque uma sacerdotisa trabalha para o bem-mais-elevado de si e de todos. E que assim seja!

imagem: John Reinhard Weguelin

por Ana Paula Malagueta

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