Adentrar ao Círculo de Mulheres nem é sempre fácil. Há muito de nós em cada etapa da jornada, em cada encontro, em cada gesto e em cada mulher que ali está. Estar em um Círculo de Mulheres é olhar as diversas facetas de si em cada reflexo de cada mulher. É reconhecer, identificar e resgatar cada manifestação e poder de si em cada deusa. A grande sacada está em permitir-se.

Estive fazendo um levantamento das vivências da Espiral I, a 1a Jornada do Devi Shala Círculo de Mulheres para através das minhas anotações identificar as aulas e em conjunto as deusas que as mulheres tem tendência a terem maior resistência ou dificuldade. O que também diz muito sobre as facetas e partes de nós com as quais temos dificuldades.

Porque, antes de mais nada, quando negamos, ofendemos ou rejeitamos uma Deusa, estamos fazendo isso com a parte de nós que aquela Deus representa. E como estamos tão acostumadas e ambientadas no mundo do Pai e dos Deuses nem percebemos que fazemos isso. Mas fazemos. Toda a nossa resistência, todas as nossas críticas, todo nosso olhar torto e toda a fuga que fazemos para bem longe de uma deusa, é um aviso gritante de que esta parte de nós está sofrendo o mesmo.

Então, mulheres, você que é muito e que contêm toda a manifestação em si, irá se reconhecer muito nesta viagem pelas deusas. Eu sempre coloco essa vivência e passagem pelo Sagrado Feminino como um grande quebra-cabeça que iremos montando e assim, cada deusa é uma peça que colocamos de volta na grande paisagem interior que nos compõe.

Cada deusa traz um poder, uma medicina e um dom que é inerente a nós. Que é parte de como o Feminino se revela em você: em pensamentos, palavras, ações, comportamentos e toda a sua personalidade. O Feminino é a Sagrada manifestação do Universo. E portanto, não há como ter uma única forma de fazê-lo, mas sim muitas portas e janelas.

É perceptível e palpável que temos algumas deusas mais negadas e excluídas que foram exiladas por muito tempo. Com as deusas bruxas, feiticeiras e portanto, inexoravelmente do mal. Porém, isso assim se deu por conta de toda a história de dominação, subjugação e negação do feminino. Assim, deusas como Lilith, Hécate, Inana, Baba Yaga, Perséfone, Kali…entre tantas outras, foram exiladas na escuridão e ditas como aquelas que não devem ser nomeadas. Algo a la Harry Potter e o Voldemort (pronto, falei!). E outras, que dentro da visão e construção do imaginário sexista e androcentrada foram louvadas e colocadas como um padrão a ser seguido como Eva, Hera, Athena, Sophia, Virgem Maria e outras a serem desejadas mais taxadas com diversos adjetivos como puta, prostituta, vagabunda e mulher que não se dá ao respeito, como Afrodite, Maria Madalena, Lilith (novamente) entre tantas outras.

E assim, nós, mulheres, fomos entrando nessa energia e conceituação mesmo sem saber. Isso, fez com que nos afastássemos uma das outras, e isso fez com que fragmentássemos os nossos poderes. Somos mulheres que carregam aquele vazio presente e constante, de algo que não sabemos muito bem o que é, mas que sempre está faltando. E esse vazio é essa separação que nos foi imposta sem percebermos de que a mulher é boa é má, respeitável ou não, santa ou vagabunda. Mas, isso não é verdade.

A Grande Mãe, a Deusa de Mil Nomes sempre foi tudo. Nela continha-se todas as expressões e manifestações do Feminino. E isso, não é bom nem ruim, simplesmente é. E quando começamos a fazer o caminho de volta ao colo e ventre da mãe, começamos a novamente abrir nossos corações para receber seu toque amoroso e a lembrança de quem somos em nossas almas. Porque nós simplesmente esquecemos quem somos e de onde viemos. Estávamos apenas órfãs de Mãe.

E quando isso acontece, vemos que todas as deusas. Aquelas que eu detestava. Aquelas que eu tinha preconceito. Aquelas que eu já amava. Aquelas que faziam minha alma estremecer de medo e de paixão inexplicável, revelam o medo e a paixão que eu tinha por mim mesma. Porque o feminino é tudo isso. Escuro e Claro. Sombrio e Luminoso. Selvagem e Numinoso. Poderoso, acima de tudo. E totalmente abrangente.

É nessa hora, quando abraço de volta as deusas que faziam parte da vida das nossas ancestrais é que começamos a iniciar o processo de integração e integridade de cada mulher. O resgate do nosso poder e da nossa soberania perdida. E retomamos as rédeas das nossas vidas, não mais como pedaços mas sim como seres completos. É na hora que abrimos nossos corações e ventres para receber a benção de Eva e Lilith, de Perséfone e Deméter, de Afrodite e Hera, de Baba Yaga e Kali, de Durga e Saraswati, de Virgem Maria e Maria Madalena, de Hécate e Inana, de Ísis e da Mulher Selvagem, é só então que nossas asas se abrem, nossos dons esquecidos retornam, nossa magia desperta e nossa intuição fortalece-se imensamente. Através de cada deusa que acolho e fortaleço dentro de mim, começo a me curar. E a minha cura é a sua cura e a sua cura é a nossa cura. E isso é uma vida em Círculo. Uma jornada espiralada com um centro comum que é o fogo do Sagrado Feminino, a Sagrada Chama que nos chama de volta.

 

Imagem:Emily Balivet
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