Nós mulheres somos a natureza e Ela é nossa. Nós somos ela e nossa natureza se assenta na Mãe Terra. Nossa Mãe. Nossas raízes. Nossa ancestralidade. Todo o corpo do feminino é o corpo da natureza, porque foi Dela que tudo veio, que tudo se fez e ainda se faz – diariamente. A natureza, assim como nós, somos mais do que apenas uma estação. Não fomos feitas para estacionar. Encostar. Ficar por tempo demais em uma estação só da natureza, da vida e dos nossos ciclos. Não. Somos um continuo de uma estação após a outra, em perpétua renovação. Porque a natureza nos ensina a ser início, a ser fim e a ser recomeços. Em meio a tudo isso, podemos ser o que quiser. Mas, estamos para todo o sempre, girando, espiralando e rodando na roda da vida.

Somos a espiral que desce às profundezas da Terra, onde abraçamos o coração pulsante da Mãe. Onde repousamos coladas em seu peito. Ouvindo o som da criação. Ouvindo as canções antigas cantadas pelas mulheres da Terra, pelas Deusas, pelas profundezas da Terra, que trabalham sem parar absorvendo e transformando, dando vida após vida, recebendo a morte e ofertando-a o dom do descanso para depois recomeçar. Acalentadas no coração da mãe, voltamos ao nosso estado urobórico. Onde a espiral se fecha. Onde os ciclos se completam. Onde a vida se recolhe. E nós, voltamos ao útero. Adentramos a caverna das nossas almas, atravessando o vale das sombras e acendemos os nossos fogos. Porque é do escuro que se faz a luz e da escuridão que precede a mãe. Em frente ao fogo, unidas ao cordão da mãe, nos reabilitamos, carregamos e silenciamos. Refletindo sobre o ciclo que se fechou e preparando para os ciclos que virão.

Trocar de pele. Honrar a chama sagrada da criação. Honrar os estados sombrios que nos revelam nossas maiores forças. Os sonhos que sonhamos e a vida que se revigora e entusiasma novamente. Na caverna escura da Deusa, depositamos as sementes dos nossos sonhos, que agora, ao serem tocadas, penetradas e alimentadas pela luz do Sol, entram em perfeita harmonia com a natureza. Foi nutrida pelas sombras, pela escuridão da Terra e agora o Sol a chama, para romper as camadas, o casulo e ascender. Mas, essa ascensão só é possível, se temos fortes raízes fincadas e ancoradas em nossas tradições, em nossa ancestralidade, honrando quem veio antes, nos precedeu e os esforços necessários que são feitos no silêncio da noite, para o despontar das novas flores e o vigor dos animais, a força dos vulcões, o poder dos ventos e dos rios e mares que se dobram, contornam e enchem a Terra.

A mulher, que passou pela sua fase escura e permitiu-se ficar o tempo necessário em sua caverna. Está pronta para caminhar pela Terra. Sentir a grama. Sentir o Sol. Ver a Lua aparecer, contornando o céu. E toda a vida despontar. Com Ela tudo cresce. Tudo renasce. Tudo recomeça. Com vigor. Com energia. Com vontade. Porque o Inverno foi respeitado. Porque as Deusas Escuras foram honradas. Porque tivemos respeito o suficiente para voltar para casa. Só então, podemos seguir com passos firmes através da realização do que envisionamos em nossas cavernas.

E tudo que é sonhado, desejado e realizado, precisa do tempo necessário para madurar. Para desenvolver. Para tomar vida própria. Todas as pessoas, todos os animais, todos os elementos, todas as deusas e todas as relações, nesta hora, se juntam para unirem sonhos, visões, desejos e propósitos. Para unificação. Para a humanidade. Para que a dádiva seja compartilhada com a humanidade. Um sonho que é sonhado sozinho, é ainda mais forte e poderoso quando é compartilhado. Sem reservas. É a mãe que deseja que os filhos voem. A mulher que estimula o crescimento. A menina que tem coragem e ferramentas para dizer o que quer e mostrar para o que veio. É o útero fértil. É a abundância. É a fertilidade. É o encontro do feminino profundo com o masculino fecundo e sagrado. O ritual. O sensorial. A magia dos momentos sagrado que se revelam naturalmente. Almas que se cruzam. Almas que se amam. Almas que se encontram para compartilhar vidas.

E tudo que é compartilhado torna-se ainda mais abundante e rico. Porque a natureza é pura riqueza. E sabe que essa riqueza tem tempo para ser aproveitada. Que não podemos estacionar. Ver só um lado das muitas dimensões da vida. Isso limita o ser humano. Limita o potencial manifestador. Por isso, que a natureza segue. A Lua que anteriormente estava cheia e plena, agora começa a minguar, em plena sintonia com as árvores e as folhas que caem. Com a terra que seca. Com o ar que gela. Com o fogo que diminui, sem nunca se apagar. A natureza começa a transicionar. Assim, também a mulher. Voltando-se novamente para dentro, sabendo que precisa fazer seu caminho de volta para a caverna, que é seu lar. Voltar-se para si, que é onde tem os encontros mais profundos com Ela. Ela que caminhou ao seu lado. Ela que mostrou o ápice da vida. Ela que agora ensina que precisamos nos desapegar. Por mais belo. Por mais maravilhoso. Por mais encantador que tudo possa ser. Porque nada será perdido. É hora de renovar. Reciclar. Deixar ir. E então, a mulher começa a sentir as energias de tudo que Ela é. Força e suavidade. Luz e sombra. Claro e Escuro. Sol e Lua. Primavera e Verão. Verão e Inverno. Menina e Anciã. Todas as energias estão nela. Mesclando-se. Transicionando. Harmonizando-se. Limpando seu interior. Guardando o que irá precisar para seu resguardo. Liberando o que não serve.

Já, de frente de sua caverna. Essa mulher vê tudo que Ela pode ser. Donzela e menina brincalhona, que deixa o lar para experimentar o mundo pela primeira vez, quando a Primavera vem e a Lua Cresce. Amante dos prazeres e gratificações que a Terra e suas relações podem oferecer, que talvez geste, que talvez co-crei, que talvez encontre alguém para reinar lado-a-lado, quando a natureza está quente e a Lua Cheia. Porém, Ela sabe que este não é seu estado eterno, que ela precisa desapegar das suas criações, relações, experiências e também de si mesma. Das personagens que assumiu. De tudo que viveu. Dos elos que estabeleceu. Porque a Mãe a chama de volta, e ela sabe que a Lua já Mingua e que a natureza já deixa um rastro aos seus secos pés. Neste momento, ela não é nem uma coisa e nem outra. Mas, quando Ela chega novamente à caverna da Mãe, à fonte, ela vem cheia de histórias para compartilhar. Estórias que irão aquecer as noites mais frias. Onde o conhecimento será partilhado. Onde verdades e saberes femininos serão mais uma vez ensinados. Onde seu corpo e seu ritmo será respeitado. Onde mulheres se unem ao silêncio profundo da escuridão, para renascerem novamente e virem trazer suas dádivas ao mundo, num próximo verão.

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