Conversei com uma amiga minha nesta semana que está cuidando de sua bebê e como uma yogini (praticante e professora de yoga) ela me surpreendeu com sua visão tão clara, lúcida e coerente da maternidade. Ela conseguiu em poucos minutos falar da sua vivência na prática de tudo aquilo que eu costumo falar para minhas alunas gestantes, na intenção de que elas reflitam e questionem um pouco mais, tudo que é colocado como “normal” e “óbvio” dentro da maternidade. A minha intenção é sempre termos consciência das coisas, para conseguirmos olhar para tudo através do prisma do Feminino Sagrado, ou seja, do Feminino Instintivo, Selvagem e Autêntico que habita dentro de nós, ainda mais forte e aguçado como fêmeas que acabaram de darem luz às suas crias.

Laura Gutman já diz que o selvagem torna todas as mulheres saudáveis. Sem o lado selvagem, a psicologia feminina fica desprovida de sentido. Ou seja, sem este lado desperto e atuante, as mulheres tornam-se desprovidas de confiança e da sabedoria ancestral feminina, que está disponível para guiá-la durante esta nova jornada como mãe e como nova mulher que se tornou após o parto do seu filho e seu nascimento como uma nova mulher. Se formos mais fundo, esta parte selvagem é a expressão e manifestação da Deusa Ártemis em nós. Aquela que se torna a grande mãe ursa cuidando de suas crias, e que sabe sim, exatamente o que precisa fazer.

Isso, irá nos levar a um ponto muito importante. Minha amiga comentou como todos ao redor dela insistem que ela precisa de determinadas coisas para cuidar “melhor” do seu bebê. E ela me disse: …”tudo que me oferecem só irá me desconectar dos meus sentidos que estão naturalmente mais aguçados para perceber esses sinais do bebê e do meu redor. Eu quero é fortalecê-los e não enfraquecê-los para ficar dependente de algo externo.” Eu só faltei bater palmas do outro lado quando ouvi isso! Porque o senso comum diz que você precisa de babá eletrônica para ouvir seu bebê, sendo que sem babá eletrônica você irá ouvir muito melhor seu bebê, obrigada. Que você precisa de chupeta, porque senão como irá viver com um bebê que chora o tempo todo. Oi? Mas, aí entramos na questão da vivência da maternidade e me lembra uma passagem da Laura Gutman em A maternidade e o encontro com a própria sombra que diz “somos uma sociedade extremamente violenta com nossas crias. Insistimos em não atender as queixas dos bebês, que dependem exclusivamente do cuidado dos adultos”. Sim, somos…porque queremos tratá-los como adultos e esquecemos que são bebês que precisam da nossa atenção e que sua forma de comunicar isso é entre muitas coisas, através do choro. E como Gutman diz: “A possibilidade de sugar, ingerir e satisfazer a fome deveria estar disponível cada vez que o bebê pedisse”. Porque é disso que ele precisa. Ele precisa de você: mãe e pai. Afinal, “um bebê se constitui um ser humano na medida em que está em total comunicação com o outro, de preferência a mãe. (…) o tempo todo de colo, calor, abrigo, movimento, ritmo”.

Esse é o mundo dele. Ele ainda é a mãe. Ainda estão em simbiose. Em fusão. Em unidade. Isso, me lembra da imagem da Grande Mãe, que tudo contêm, e neste caso, ela contêm a si mesma e ao seu bebê. Como um grande redondo. Não há separatividade aqui. Há apenas a Unidade. E é assim que é também para o bebê, mesmo após o parto. O parto na verdade, não é uma separação. Ele é o ponto inicial. A jornada da mãe e do bebê começam ali, no momento em que deixam o útero primordial e nascem corporalmente na vida terrena (a mãe tendo seu segundo nascimento). Apesar, do corte do cordão umbilical, o pós-parto ainda é uma continuidade da gestação, por isso, muitos chama de 4o período gestacional. Laura Gutman, tem mais a nos dizer sobre isso:

De fato, o bebê e sua mãe continuam fundidos no mundo emocional.
Este recém-nascido, saído das entranhas físicas e espirituais da mãe,
ainda faz parte do entorno emocional no qual está submerso.
Pelo fato de ainda não ter começado a desenvolver o intelecto, conserva suas capacidades intuitivas,
telepáticas, sutis, que estão absolutamente conectadas com a alma da mãe.
Portanto, este bebê se constitui de um sistema de representação da alma materna.
Dito de outro modo, o bebê vive como se fosse dele tudo aquilo que a mãe sente e recorda,
aquilo que a preocupa ou que rejeita. Porque, neste sentido, são dois seres em um.
Assim, de agora em diante, em vez de falarmos “bebê”, faremos referencia a “bebê-mãe”.
Quero dizer que o bebê é na medida em que está fundido com a mãe.
E, para falar de “mãe”, também será mais correto nos referirmos à “mãe-bebê”,
porque a mãe é na medida em que permanece fundida com seu bebê.
No campo emocional, a mãe atravessa esse período “desdobrada”,
pois sua alma se manifesta tanto em seu próprio corpo como no corpo do bebê.
E o mais incrível é que o bebê sente como próprio tudo o que sua mãe sente,
sobretudo o que ela não consegue reconhecer, aquilo que não reside em sua consciência, o que relegou à sombra.

Sinto, que muitas das coisas que nos oferecem neste período de maternidade, é para nos tirar dessa experiência de contato nu e cru com nós mesmas, com nossas sombras, com tudo aquilo que passamos uma vida escondendo e com nossa mais profunda sabedoria. Nesta hora, eu vejo, como a sociedade faz com que não vivenciemos nossa face Perséfone. Abraçando e sendo envolvidas pelo mundo das sombras, das emoções e sentimentos revelados e de tudo aquilo, que um dia foi conflito e foi negligenciado, sendo visto em nosso bebê, que nos projeta absolutamente TUDO QUE SOMOS. Eu posso escolher ver ou eu posso escolher correr. Mas, se eu encaro, sem dúvida alguma, iremos amadurecer como nunca em nossas vidas. É uma fase poderosíssima…

Porém, ela acaba sendo difícil porque o bebê nos chama para estarmos absolutamente presentes. E isso, foi outra coisa que minha amiga comentou. Na sua visão de praticante de yoga, disse que a prática nunca foi tão vivenciada como agora. A repetição das ações. A total disponibilidade. A presença constante. E isso, a cada segundo, a cada dia, a cada semana, a cada mês, porque o tempo aqui já não existe mais como antes. A fusão é vivenciada em sua plenitude, e quanto mais eu aceito a realidade, mais fácil ela se torna, porque eu já não bato mais de frente com ela, querendo que fosse diferente, querendo que o bebê entrasse na minha rotina ou querendo estar fazendo qualquer outra coisa. Tudo tem seu tempo. Agora, o tempo é do bebê, e quanto antes aceitamos isso, menos conflitos eu gero, em briga com a realidade que descortinou-se a minha frente, em briga com o presente, em briga com a mudança.

Eu não vejo ninguém ajudando essa mulher nesta grande travessia da sua vida. A entender e aceitar essa realidade. Pelo contrário, só fazem com que ela sinta-se errada, falha ou inadequada. Uma dessas coisas é sempre criticá-la e nunca apoiá-la e outra é querer que ela volte ao corpo de antes ou a ser como antes. Mas, o que ninguém fala é que nunca nada voltará a ser como antes, porque a mulher fez uma travessia durante o parto e deixou aquela que era para trás. É claro, que essa bagagem vem junto, mas agora ela é outra. E quem ajuda essa mulher a descobrir quem é depois do parto? Quase ninguém! A mulher de hoje não tem apoio. Fica isolada. E ainda assim, é bombardeada de informações que querem dizer como cuidar e o que dar ao seu bebê. Ninguém ensina a olhar para dentro. A buscar a referência dentro. A segurar sua mão nessa transição e descobrir seu novo corpo, sua nova realidade, quem é agora?

Há um movimento que tira a mulher dela mesma. Que a deixa insegura e com dúvida. Lembro de uma aluna que foi no seu pediatra, e que era o Cacá na época (pediatra humanizada dos bons!) e queria saber o que fazer para isso e para aquilo. E ele virou para ela e disse: Mas o que vocês estão fazendo até agora não está funcionando? Ela respondeu que sim. Vocês não estão felizes? Sim. Então, porque você acha que eu vou saber o que é melhor para vocês dois se está tudo bem? Porque hoje, nós aprendemos a confiar em fontes externas e não na fonte de eterna sabedoria dentro de nós. Eu quero, e eu faço parte do movimento que quer que você mulher volte-se para dentro. Fortaleça-se. Empodere-se de verdade! Porque só assim conseguirá ir contra a maré…

Toda essa maré do contra que pede para você usar chupeta para poder ter paz. E lembro que o Cacá disse no curso de fiz de Aleitamento Materno, que a chupeta é para os pais e não para o bebê. Para toda essa maré que pede que você já dê mamadeira para poder livrar-se da amamentação e ir fazer suas coisas (e minha amiga respondeu a si: fazer que outras coisas? A coisa mais importante que poderia estar fazendo agora é cuidando do meu bebê!), entre outras coisas, que nos tiram da presença do bebê, como ficar no celular/facebook enquanto o bebê chama sua atenção. Isso, me lembrou uma parte do texto da querida amiga Marcelly, que tem dois filhos, é professora de yoga e doula, que disse que deixa seu celular em modo avião quando está com seus filhos, e é isso! Seus filhos só desejam que você esteja com eles: de verdade! Porque se você assim estiver, naturalmente, irá abrir tempo na sua rotina para você também. Ninguém está pedindo que você esqueça-se de si mesma, mas sim, que reconheça que agora você é DUAS e não mais uma só. E que isso, pelo menos por um tempo, é sua realidade é o que o momento presente te pede. E se você mergulhar de cabeça, sairá muito mais forte, amadurecida e fortalecida da experiência, assim como seu bebê também sairá.

É um período intensivo de prática espiritual. Tudo que você viu na teoria, agora será solicitado que coloque em prática, e como sempre digo para minha alunas: O que melhor para seus filhos do que uma mãe que se conhece verdadeiramente? Nada! O nosso poder esta nisso! Confiar, usar e expandir a força do feminino que existe em você. E ela é nua, é crua, é dolorosa, é forte, é suave, é de tudo um pouco. Mas, aos permitirmos sermos despedaçadas e costuradas por esses saberes, iremos crescer como as mulheres que sempre poderíamos vir a ser. E você irá apresentar um mundo verdadeiro, poderoso e real para seus filhos.

A maternidade consciente é fazer escolhas com muita consciência. Escolher o que é mais saudável, mais natural e mais orgânico para você e seu bebê. Porque há um movimento de consumismo por detrás das grandes marcas e se pesquisarmos e nos informarmos só um pouco mais, já saberemos que as coisas não são tão bem assim! Que há um mercado por trás de Nan, mamadeiras, fraldas descartáveis e inclusive remédios. Então, eu tenho que saber muito bem o porque das minhas escolhas. Ao invés de já entulharmos essa mulher com coisas, porque não ajudá-la a amamentar? Ajudá-la a cuidar de si e do seu bebê mais naturalmente? Ensinar como otimizar seu tempo para estar com seu bebê e também para estar consigo? Mães e mulheres não precisam de pessoas apontando seus dedos críticos sobre elas, mães e mulheres precisam de suporte verdadeiro e amoroso!

Maternidade consciente é também ficar alerta com as armadilhas do patriarcado. Aquela bem famosa e conhecida, que tendo a crucificar a mulher que depois de um tempo, escolheu voltar para sua carreira e cuidar-se além de ser mãe. Ou aquela outra, que faz com que você fique doando-se aos filhos, ao marido e à família eternamente. Merlin Stone, diz em seu ensaio As dádivas advindas da recuperação da história da deusa que “As mulheres quase sempre têm sido consideradas como o gênero da alimentação, seguramente como resultado de serem capazes de dar à luz, amamentar e assumir a maioria ou todas as responsabilidades de cuidar do filho. Hoje, porém, o valor do traço da alimentação é visto sob pontos de vista divergentes. Por um lado, podemos considerar a característica como bela e desejável, mas também podemos ver que uma pessoa que devota sua vida a alimentar os outros pode colocar as próprias necessidade e desejos de mulher numa posição secundária. Demasiadas vezes, esse desejo de ser alimentadora levou as mulheres a negar a si mesmas qualquer direito a uma vida de realização ou satisfação, especialmente quando acreditam que tentar atingir suas próprias metas poderia de alguma forma diminuir sua capacidade de alimentar aquelas que estão ao seu redor.” Precisamos estar com alertas, para não cair nessa cilada. Porque a maternidade consciente é tanto para o bebê quanto é para a mãe, assim como é também para o pai. Isso me lembrou de uma imagem que vi nas redes sociais, que compara a participação da mãe e do pai nos cuidados dos bebês. Maternidade consciente é vivê-la alertar aos valores sexistas e do patriarcado.

E já que estamos falando disso, que tal quebrar esses padrões, regras e dogmas que já criam barreiras separativas e sexistas em nossos bebês desde o útero? Que tal questionar um pouco, porque o quarto da menina tem que ser com coisas de meninas e os dos meninos com coisas de meninos? Quem disse que isso é para menino e aquilo para menina? Por quê? Vivemos em uma sociedade muito machista e extremamente sexista, o que limita a verdadeira expressão da nossa alma, então, nós como responsáveis por essa alma e ser que escolheu vir através dos nossos ventres, somos responsáveis também por ajudá-los a serem livres, e isso começa desde pequeno. Pense: quem diz que isso é coisa de menina e menino somos nós adultos, porque a criança não faz ideia do que estamos falando…e além do mais, precisamos ter em mente que esses atributos que qualificamos e nomeamos como femininos ou masculinos, antigamente era um atributo da Deusa há vários milênios, porque isso nos ajuda a entender que quem separa em gênero somos nós. Porque cores, são só cores. Qualidades são de todos. Todos devem poder chorar, nutrir, serem fortes e frágeis, acolher, entre muitas outras coisas. É uma oportunidade de profunda reflexão de gêneros. Aqui tem um vídeo muito legal de uma menina linda questionando porque ela tem que brincar com princesas. Que tal deixar os filhos escolherem sem que os influenciemos? Que tal deixar a alma expressar-se livremente sem nossas limitações? E isso serve para nós também! Quando fazemos isso, nos tornamos fortes!

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O convite é para colocar em prática a presença constante. A clareza de reconhecer que seu bebê está te mostrando quem você é e está te convidando para viver como nunca antes no AGORA e que é juntos que vocês são mais fortes. É nessa fusão de mãe-bebê (haverá o tempo/fase de separação) que a maior potência feminina pode vir à tona e ao mesmo tempo, despertar todos os sentidos, sabedorias e saberes femininos que irão guiá-la para uma maternidade consciente e ativa, onde aquilo que funciona para você e para o bebê e faz com que ambos estejam felizes e em paz, é sem dúvida, o melhor para vocês. Confie no que você sabe. Confie no que o bebê sabe. Confie na Sabedoria Ancestral do Feminino. Apenas confie!

Eu super aconselho a todas àquelas que estão grávidas a lerem A Maternidade e o encontro com a própria sombra, da Laura Gutman. É simplesmente, incrível! Se quiser ir além, leia também da mesma autora: O poder do discurso materno, Mulheres visíveis, mães invisíveis.

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