O círculo de mulheres é um fato emergencial para as mulheres contemporâneas. Cada dia mais, a necessidade para que as mulheres estejam juntas é gritante. Como se a voz e o eco das nossas ancestrais gritassem nos chamando a atenção. Tentando-nos tirar do estado e da rotina que vive levando as mulheres para uma vida que não é delas, que não lhes é natural, que não lhes é real. As ancestrais tentam chamar-nos de volta para o caminho que deixamos um dia de trilhar. Vejo, cada dia mais, mulheres sozinhas em suas labutas. Guerreiras solitárias, amazonas armadas, mães atoladas, e todas elas, em suas heroínas jornadas, sozinhas e abandonadas. Mas, por quem? Por elas mesmas. Distantes, a mil léguas luz, do feminino das suas ancestrais. Das vozes das mulheres que sempre guiaram, inspiraram e estiverem ao lado de outras mulheres para apoiar e tornar a jornada de cada uma mais leve. Porque é muito árduo seguir sozinha. E eu sei muito bem como é isso, como você também deve saber. Meus olhos se enchem de lágrimas, só de lembrar de cada dia, que levanto e sigo e quantas vezes me senti “lutando” sozinha. E quantas tantas outras vezes, um vazio me assolou e não sabia muito bem a falta de quê. E quantas outras milhões de vezes, senti-me acompanhada e amparada quando colocava-me frente à uma deusa, chamava seu nome ou sentava-me ao redor do fogo com outras mulheres. Como toda a solidão, toda a falta de sentido, todo norte nunca encontrado e como todas as lutas travadas pareciam sem sentido, e como todas as feridas e todo o peso da armadura carregada, se tornava um acariciar na minha pele, quando eu podia simplesmente abrir mão de todas as ferramentas que eu havia me munido para encarar o mundo lá fora e como era tudo mais tranquilo somente pelo fato de estar em círculo. Era a oportunidade de abandonar o padrão automático de lutar ou fugir e perceber que há um mundo muito maior, com a mesma força mas com uma candura infinita e que estava ali me esperando e que era o Mundo da Deusa e do Divino Feminino.

Este é o Mundo para o qual toda mulher, mais cedo ou mais tarde, precisa voltar. É aquele momento da jornada onde cai uma ficha e os olhos de repente vêem aquilo que parecia tão normal com outros olhos. Porque hoje, atendo muitas mulheres com tantas questões e tanto sofrimento em suas histórias e um ponto em comum que vejo em todas essas jornadas heróicas é como todas estão vivendo uma realidade nuclear solitária, longe de todas as mulheres, desde suas familiares (muitas com problemas com mães e mulheres em geral, e adorando/tendo mais afinidade com os pais/irmãos) até mesmo com seu núcleo social, que às vezes é até inexistente. Vejo como perdemos o contato e apoio de outras mulheres. E vejo o quanto isso foi crucial para termos uma separação e ruptura drástica na nossa realidade e visão do feminino. Ficamos tão envolvidas com o Mundo do Pai, que abandonamos por completo o Mundo da Mãe. Porque tudo que é feminino é evitado e até mesmo depreciado, e tudo que é masculino é desejado e idolatrado. Foi uma inversão de valores muito grande que nos afastou. E quando nos afastamos, perdemos a força que geramos com o ponto de encontro que só o feminino pode realizar. O grande potencial que há quando mulheres se juntam verdadeiramente.

O nosso núcleo se rompeu. E com ele, rompeu-se também o nosso próprio centro. Nós mulheres, perdemos o centro. Não temos um foco ou um local para onde podemos voltar. Quase uma sensação de abandono e orfandade. Porque estamos isoladas em ilhas particulares, cada uma com seus sofrimentos, com suas dificuldades, com seus questionamentos e sem saber o que fazer com tudo isso. Quantas mulheres estão sofrendo com suas menstruações, com suas gestações, perdendo a oportunidade de terem seus partos, não confiando e acreditando em suas capacidades de maternar e educar, adentrando a maturidade como se fosse um castigo e uma desgraça envelhecer, e passando por seus dilemas e encruzilhadas da vida sem ter suporte e instrução alguma. Sem apoio. Como estrelas perdidas e distantes em um universo sem fim. Mulheres que não tem mais apoio e que não são preparadas para passar pelos ritos de passagem da vida. Vem menarca. Vem a primeira relação sexual. Vem uma gravidez. Vem um casamento. Vem perdas e separações. Vem a entrada na maturidade. Vem o papel de anciã/avó e ninguém passa o bastão para ela. Ninguém celebra com ela. Ninguém ouve seu choro e lamento. Ninguém a ajuda a confiar em seus instintos e sabedoria. Ninguém a ajuda a receber e passar para frente as sabedorias das suas avós, das suas mães e das suas filhas. Cadê as mulheres ao redor do seus fogos, em seus lares, em seus jardins, em bancos das praças e até mesmo nos fundos das igrejas. Onde estão as mulheres que se conversam, que se aconselham, que se unem para celebrar e lamentar a vida? Quantas infinitas mulheres estão passando pelos ritos de passagem mais significantes de suas vidas alheias as suas próprias naturezas, perdendo a oportunidade de acessar às chaves, poderes e ferramentas essenciais aos seus crescimentos, desenvolvimentos e aprendizados pessoais e como um grupo de uma irmandade maior que relaciona todas a linhagem de mulheres do mundo da mais velha a mais nova e assim em retroativo e adiante?

Não estamos cuidando das nossas relações. Porque estamos envolvidas em um mundo patriarcal de conquista, que prepara e deseja pessoas que sejam vitoriosas, que sejam ganhadoras, que sejam produtivas e de sucesso. Que estão orientadas para Fazer, fazer e fazer sem parar como uma máquina dentro de uma grande fábrica, que não para nunca e que nem sequer olha para o lado. Uma vida que não valoriza o feminino, mas sim que o desmerece. Uma vida onde nos isola, porque assim ficamos mais controláveis e agradáveis aos seus olhos.

Mas, precisamos voltar. Precisamos voltar pelo bem de nossas almas. Pela necessidade que temos de uma vez mais, resgatar a mulher selvagem, livre e indomável que jaz adormecida e enjaulada. Pela necessidade vital de voltarmos a viver, porque desse jeito que está somos apenas sobreviventes, cheias de marcas do tempo e feridas à nossa essência feminina, que foi corrompida e secou-se pela distância do nosso lar. Lar. Bálsamo. Rede. Teia. Útero. Coração. Vida. São algumas das palavras que para mim sintetizam o que é estar em um círculo de mulheres, em roda e permitindo espaço em minha vida para que o Feminino possa uma vez mais Respirar. Existir. Ser. Três palavras que para mim expressam o que o feminino é. Sendo que nunca três palavras serão o suficiente, mas já são um convite, uma porta de entrada, uma salvação.

Sim, sinto que estar em círculo de mulheres é necessário para a salvação de cada fêmea que habita esta terra. Porque a magnitude do que acontece quando mulheres se unem com o propósito sincero de resgatar as deusas que foram difamadas, enterradas nas poeiras do tempo e a sabedoria das nossas ancestrais, pura e verdadeira, é a maior cura que podemos fazer por nós e pelas futuras gerações. Cada dia que mulheres se juntam em círculo, é uma grande reverberação que é introduzida e somada no universo com um potencial incrível de mutação, elevação e transformação. Cada dia que mulheres se juntam, empoderamos umas às outras. Cada dia que mulheres se juntam, é uma lágrima que é partilhada, uma conquista que é celebrada, uma mudança que é compreendida, uma iniciação que já não é mais vivida sozinha. É a vida em comunidade. É o pensar em benefícios mútuos. É lembrar de quem somos. É percebermos que somos mais fortes juntas. É criar um mundo rico e fértil onde eu sou você e você sou eu. Nunca mais separadas, mais juntas, na alegria e na dor. Na vida e na morte. Na eterna espiral da Deusa, ventres, corações e almas, de novo vivendo de verdade. Porque a vida tem mais sentido quando caminhamos e realizamos a história de uma mulher protagonista da sua história e não mais coadjuvante, soberana e não mais dependente e esquecida, lembrada e viva com narrativa própria, brilho nos olhos e medicinas que abençoam a Terra e todas as nossas relações.

Porque você mulher é muito importante. Você pode mudar a história de outras mulheres e sua história pode inspirar tantas outras. Mulheres vocês são importantes. Cada história. Cada particularidade, cada tudo e cada pouco. Você tem valor para uma outra mulher porque mesmo sem conhecê-las, todas as mulheres tem valor para mim, porque tudo que eu faço é por cada mulher que conheço e principalmente para as que desconheço, porque para o Divino Feminino, tudo importa.

Mulher, você é importante. O círculo só é restaurado se você estiver lá.

Que assim seja,
Abençoadas sejam todas.

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