Maureen Murdock, em seu livro maravilhoso, A jornada da Heroína, cita algo, que escolhi para abrir esse artigo, porque sintetiza algo que sempre levanto com minhas alunas e clientes, quando dizem que as mulheres de hoje são livres para fazer suas escolhas.  “Sim, querida, você pode fazer tudo que você quer, desde que seja, exatamente o que nós queremos que você faça.” Ou seja, não, não somos livres, apenas “achamos” que somos. Vivemos em uma grande ilusão de liberdade feminina, especialmente, quando falamos de sexualidade feminina. Quando o que acontece é exatamente o oposto! Somos, desde muito pequenas, direcionadas e “educadas” a viver e expressar a nossa sexualidade visando o prazer do outro. Porque, quando meninas são vestidas como adultas, expostas e até entregues aos homens mais velhos, quando as mulheres tem que seguir um padrão e regras para beleza/sensualidade/validação/aprovação, que incluem itens como maquiagem, roupas femininas (de mulher direita (santinha) ou de mulher vulgar (puta)), depilação completa (para serem novamente menininhas), plásticas (para serem de novo menininhas ou “congelarem” no tempo “perfeito”), cabelo não pode ficar branco (para serem de novo jovenzinhas), a bunda e os peitos não podem cair e as rugas não podem aparecer (vivemos em uma ploriferação de produtos e serviços para antienvelhecimento, a sociedade com síndrome de Peter Pan), entre tantas outras coisas, estamos em uma sociedade que coloca a mulher em uma vitrine o tempo todo a disposição do homem. Objetos. Produtos. Coisas. Que eu uso. Que eu olho. Que eu desejo. Que eu disponho como e quando bem entender.

A mulher sexualmente bem resolvida tem duas faces. A que de fato é e a que de fato acho que é mas não é. Porque, muitas vezes, o “sexualmente bem resolvida” está lá, apenas para ser exatamente tudo que beneficia, preenche e atende às necessidades do outro, em suma maioria, do público masculino. Então, ela aprende desde pequena como ser uma mulher independente, sensual, resolvida e livre, porém, dentro dos moldes patriarcais. O que vestir. Como agir. O que fazer. O que não fazer. Como falar. Como seduzir. Como estar sempre bonita e maravilhosa. Como dar prazer para um homem….e a lista vai, sem fim. Tudo isso, acabamos ouvindo das bocas das mulheres das nossas famílias, de nossas amigas (e não queremos ficar atrás no grupo), e da sociedade, afinal, as revistas e mídias sempre sabem como dizer o que uma mulher deve e não deve fazer para ser “mais mulher”, “uma verdadeira mulher”, “uma mulher para namorar”, “uma mulher para isso e para aquilo”…e no final, o que de fato essa mulher fez PARA ELA MESMA? Nada….

Fica o vazio…e o que estava tão bem resolvido, na verdade, nunca sequer esteve. Porque essa mulher nunca aprendeu de fato, como se vestir de forma que expressa-se sua natureza, se desejava se maquiar ou não para ela, o porque precisa se depilar de fato e odiar seus pêlos, seu cheiro (que precisa de sabonete higiênico feminino com cheiro de flores), “mascarar” sua menstruação (com absorventes com cheiro de flores), o que falar, quando calar, que sua sexualidade acontece via o outro e que não funciona direito  – afinal, nos filmes pornô, basta muito pouco esforço do homem para a mulher enlouquecer e o prazer dela é sempre o prazer dele (oi?!) e são tantas, mais tantas outras coisas!

Acabamos, nós mesmas, mulheres sexualmente resolvidas, taxando as outras mulheres de putas e vagabundas, de desleixadas e pouco femininas – quando não usam maquiagem e pasmem quando não usam sutiã – e passamos, desde muito meninas (quando nem entendemos direito as coisas) que temos que fechar as pernas porque senão desperta o desejo dos homens e demonstra pouca educação, que temos que nos comportar, que temos que ouvir e respeitar os homens que sabem mais, que precisam ser agradados e patati-patata….meninas que são “educadas”e que para mim na verdade é um tipo de deseducação a ser tudo que um homem deseja ou a ser tudo que ele não deseja como uma rebeldia, e que no final, acaba também sendo bom para eles!

Já pensou sobre isso? Porque quando nos rebelamos, vamos lá e colocamos os peitos de fora. Os hómis vão a loucura! Vamos lá, e rebolamos sensualmente com nossos corpos semi-nus em cima de um palco, e os hómis piram! Vamos lá e fazemos muito sexo…e os hómis são os beneficiados e nós as putas, porque a mulherada está muito avançada, selvagem e livre…e buscamos a nossa independência a todo custo, porque queremos dar conta de tudo….e os hómis estão cada vez com menos e menos responsabilidades, e ficam largados em sofás ou “aproveitando” a vida, porque agora tem tempo de sobra, porque quem banca e sustenta o lar e muitas empresas e projetos nesta mundo, agora são as mulheres. E quem ganha os reconhecimentos, as adulações e premiações são os hómis! Mas, que maravilha! Enquanto muitas mulheres ainda não são reconhecidas, ainda sofrem preconceitos e ainda sofrem violências, em muitos meios dos acadêmicos aos sociais e políticos, isso, quando as suas participações ainda são inexistentes em diversos setores, porque não é lugar de mulher e só os homens imperam.

No final de tudo isso…enquanto achávamos que estávamos livres e muito bem resolvidas, muitas mulheres se maquiam sem gostar e porque aprenderam a achar-se feias sem a maquiagem (ou descuidadas), a gastar parte da sua grana em salões de beleza e com produtos de beleza feminina (que aliás é a maior seção das farmácias e supermercados, já reparou nisso?), investir em produtos de limpeza (que pasme, tem supermercados que colocam como setor feminino! Porque homens não limpam, lavam, passam etc????), roupas adequadas a mulher moderna e em como estar mais pronta e preparada para que os homens a desejem. Porque, já ouvi isso, mais de uma vez, em lugares de suposto “trabalho do sagrado feminino”, que senão assobiarem para você quando passar em frente de uma obra, algo está errado. Que se você não sair e tiver homens virando a cabeça por você, algo está errado, que se você não se maquiar, pentear, depilar, pintar cabelo, pintar as unhas, usar “saias e vestidos” e sensualizar, você não está sendo feminina o suficiente, e aí, como fica?

Bem, eu pergunto: e no meio dessa porra todo, onde EU FICO?

Porque, no final, a vida da mulher é vivida por outra pessoa que não é ela. Seu gozar da vida é inexistente, limitado ou fingido (quem nunca?) e sua falsa liberdade acaba sendo aproveitado pelos outros e nunca por ela. Porque o preço (literalmente) que se paga por essa ilusória liberdade ainda é altíssimo e para muitas custa suas vidas. Ou custa investimentos de alto padrão feminino e asséptico, que a distancia de sua natureza e de experiências de verdade, profundas e transformadoras. A vida a tira sua chance de menstruar, a chance de parir, a chance de viver uma menopausa saudável, a chance de ser mulher em todas as suas diferentes nuances, sem obrigatoriamente, ter que ser dona de casa, empresária ou esposa. Sendo, que ela pode ser muito mais do que isso ou nada disso, ou isso. Mas, as escolhas, teriam que ser verdadeiramente livres das influências midiáticas, sociais e muitas vezes, com as intervenções religiosas que apontam seus dedos sobre as cabeças femininas, culpadas pela sua própria existência. Malditas, Evas e Madalenas…mal sabem as mulheres, que tudo isso, é medo e controle sobre o PODER QUE AS MULHERES TEM, porque quando elas conhecem quem de fato foi Eva/Lilith e Madalena, irão descobrir quem VERDADEIRAMENTE SÃO e quais são SUAS LINHAGENS!

Outras mulheres então para o outro lado da “liberdade”. Eu já ouvi de tantas mulheres, que na verdade, a culpa é das mulheres, porque elas quiseram igualdade com os homens e para tal, abriram mão da sua natureza feminina e tornaram-se homens. E quantas já não chegaram nos trabalhos que faço e disseram, vim porque estou muito masculina ou me disseram que eu sempre agi como homem. E que na verdade, os homens até gostam desse meio jeito, porque eu meio que faço parte da gangue e eles “apreciam” essa liberdade minha. Sim, eles apreciam muito! Literalmente…Mulher, olhe com um olhar mais crítico para isso de ser e estar masculina. De onde vem? Qual o comparativo? Sim, o comparativo são todos os nomes e rótulos que a sociedade patriarcal escolheu para definir o que é ser mulher. Então, quando você não se enquadra nisso, cai nesta armadilha. Afinal, mulher não tem que ser amorosa, carinhosa, acolhedora e uma lady (eu já ouvi essa tantas vezes!rs)? Quem disse? Se fosse só isso que definisse o feminino e a feminilidade, mas de muito longe e pobremente, com certeza, nem chega perto! O feminino é muito mais do que isso, rótulos!

Outra grande ilusão é duas coisas que tendem a acontecer nesta sociedade que cada dia mais parece com um circo. Que é a dicotomia do endeusamento com o linchamento das mulheres. Então, temos as mulheres que são colocadas em um pedestal, como deusas (oi?!) e outras que são linchadas, porque não são exemplos de mulheres (deus que me livre seguir essa perdida!)….né?! Quem nunca viu isso? Acontece o tempo todo!

E novamente eu pergunto: Onde VOCÊ FICA? Cadê você?

Como, em meio de tantas coisas que vem com a gente desde o berço. Afinal, meninas tem que ter quarto delicado e vestir roupas de meninas, brincar de boneca e todo aquele circo que é comprado…e quando cresce, tem que ir seguindo ditamos que vão dizendo quando virar para a direita e quando evitar a esquerda e como preparar-se para a vida. E os papéis que nos ofertam são muito limitadores, porque trazem junto deles, o selo de aprovação ou reprovação masculina. Ou eu agrado ou eu desagrado os homens. Porque o mundo das mulheres gira em torno de um falo sempre ereto, não?

Não….

A questão é: Nós mulheres precisamos sim, ser verdadeiramente livres. Primeiro: desses rótulos todos e não buscar encaixar-se neles. Segundo: buscar o verdadeiro empoderamento para que possam fortalecer-se e realmente encontrarem sua feminilidade, que não está no que a mídia diz e nem no agradar e buscar validação do outro. O convite que fica é: informe-se, questione, seja mais crítica e use mais o discernimento, para encontrar dentro de si a verdadeira liberdade e a mulher autêntica que emergirá do feminino essencial que habita dentro de ti e em ninguém mais. Só assim, você poderá viver sua sexualidade, seus processos femininos, sua natureza de fêmea e sua vida, com os controles e rédeas em tuas mãos!

É isso que eu desejo para mim.
É isso que eu desejo para você.
É isso que eu desejo para nós!

imagem: Holy Vagina Jesus, painting by Michael Hussar

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