Vivemos em um mundo onde o sentir e expressar seus sentimentos virou uma grande problemática. A maioria das expressões de sentimentos são recebidas como um tipo de descontrole e sensibilidade extrema, que acaba gerando desconforto nas pessoas que estão ao redor, o choro é visto como sinal de fraqueza e outras expressões mais intensas são vistas como forma de descontrole. Isso, quando não entramos em discussões de gênero, onde homem não chora e não se emociona porque ser tocado e ser vulnerável é coisa de mulher, e onde as mulheres que mostram seu sentimentos são carentes, estão de TPM, ou estão descontroladas.

É muito comum, quando alguém está expressando suas emoções ou tentando, sem conseguir expressar devidamente suas necessidades e o que está sentindo, cair ou no choro, na raiva/agressividade ou na defensiva. O que faz com que nos frustremos por não conseguir comunicar o que queríamos e nem nos fazer entendidos. O que acaba nos distanciando dos outros e também do que de fato precisamos. Porque, por trás de cada explosão, de cada lágrima, de cada agressividade, de uma voz que se levanta ou de uma cabeça que se abaixa, há um profundo sentir que não foi acessado, que não tornou-se consciente, que não veio à superfície.

Desaprendemos a buscar dentro de nós o que de fato nossos discursos querem nos mostrar sobre nós mesmos. Como vivemos em um mundo patriarcal que desvalida o sentir e louva o racional/mental, fomos aprendendo a não expressar os sentimentos, a mostrar insensibilidade ou incrível resistência frente ao que nos toca. Para que assim ficássemos fortes e inabaláveis, enquanto dentro de nós, acontece uma grande revolução. Porque quanto mais empurramos nosso sentir para dentro, mais nossa caixa de pandora vai ficando cheia e uma hora transborda dentro de nós. E todo aquele sentimento vem à tona, e começamos um mecanismo de autopunição e culpabilidade sem fim. Nos destruindo por tudo que escondemos, sem de fato entender o porquê de tudo isso. E vamos ficando infelizes, depressivas, frustradas, raivosas, agressivas e ariscas. Vamos explodindo com o mundo, porque estamos explodindo por dentro.

Isso mostra o quanto nos distanciamos do universo feminino dentro de nós. Das Deusas. Do Sagrado. Dos dons e energias que elas trazem. O poder da empatia, do ouvir, do sentir, dos relacionar-se e vincular-se, do estar presente, do fluir com a vida. Hoje, é como se estivéssemos sendo contida por barreiras que seguram nossas águas interiores por todos os lados. Com uma máscara de mulher guerreira e que não se envolve, que está acima de tudo isso. Que é forte, que é superior e que não precisa de ninguém. E acreditamos nisso tudo. Acreditamos nestes valores tão patriarcais, que revelam uma tirania sem fim, que faz com que as mulheres assumam uma identidade solar e isolada do todo. Seguindo um ritmo e uma forma de viver que não é natural do feminino. Mas, sim, que é exatamente o que esse patriarcado deseja, uma mulher que seja como eles desejam, que é mais como eles são. E assim, vamos assimilando essas crenças que vão nos afastando da nossa natureza.

Nos tornamos a mulher que está presa e que só tem suas tranças para jogar e deixar alguém entrar. Mas, que passa o tempo todo isolada, sofrendo a tirania desse masculino interior, que a assola, que a cobra, que a pune, que a culpabiliza de tudo e que a violenta diariamente. E não tem ninguém externamente a quem devamos apontar os dedos. Mas, sim, precisamos voltar-nos para dentro de nós e resgatar o feminino sagrado que irá nos ajudar a curar esse masculino, enquanto cura-se a si mesma, e nos liberta da nossa prisão. E o pior, que como estamos aprisionadas, começamos a ver tudo como uma prisão, porque na verdade, queremos liberdade daquilo que internamente está nos sufocando. Aí, começamos a ver no mundo, relacionamentos sendo tratados com um descaso imenso e como algo que não merece minha atenção e que me incomoda, os dramas alheios me incomodam (porque os meus próprios não recebem empatia suficiente), as pessoas são descartáveis, trato os relacionamentos como se estivesse escolhendo um prato para comer, e as vidas são desconsideradas e rotuladas apenas pela sua utilidade e tempo de duração. Ou seja, com o feminino aprisionado, perde-de a visão de que tudo é parte do todo, que tudo é sagrado, que cada vida é preciosa, que cada história tem que ser honrada e que cada momento é único. Que o tempo é cíclico e que nós fazemos parte dela. Que fazemos parte da Terra e que todas as minhas escolhas, influenciam o todo SIM.

Uma dica é resgatar a empatia por si mesma. Assumir os sentimentos e pensamentos que contêm crenças e que precisam ser acolhidos, sentidos e abraçados. Depois, ir questionando-se para ver qual necessidade há por trás das coisas que eu sinto, de tudo que me gera raiva, frustração e medo. Qual necessidade minha não está sendo atendida? Do que eu preciso? É o primeiro passo para parar de direcionar a culpa das nossas raivas e medos à alguém. Assumir que isso é nosso, que está dentro de nós, que algo não foi atendido ou recebido da forma que eu desejava. E buscar bem lá no fundo o que é. É o primeiro passo para destruir esse tirano. Inundá-lo com empatia. Desarmá-lo. E nos desarmar. Diluir esse muro que criamos. Esse isolamento que construimos. A persona que acreditamos ser e manifestamos ao mundo, mas que não nos traz felicidade.

É vital resgatar o Feminino Sagrado em nós, para nos salvarmos dessas armadilhas que corroem nossa integridade. Que tiram a nossa vitalidade. Que nos deixam imóveis frente ao nosso poder e sacralidade. O Feminino é fortíssimo, exatamente porque é através da sua vulnerabilidade que consegue estender seu poder empático e compassivo, primeiro para si e depois para o mundo, sabe que deve ser flexível, sabe que é mutável, sabe que tem momentos para dizer sim e outros para dizer não, sabe quando deve estar com os demais e sabe quando tem que estar só. Sabe que sabe. Sente e através do sentir, vive plenamente. Sua sexualidade, sua sensualidade, sua criatividade, sua fertilidade, sua intuição, sua força, sua destruição. Sim, porque tudo isso está em nós. E quanto nos isolamos nesta falsa idéia de guerreira indestrutível que está sempre lutando sozinha e amazona de armadura impassível, estamos deixando de viver plenamente quem somos. Porque essa idéia de guerreira que temos hoje, não condiz com as deusas guerreiras e primitivas que existiram e nem com a força que temos dentro de nós. Uma guerreira sabe dançar, sabe dialogar, sabe ser diplomática, sabe mediar e sabe que a violência não resolve nada, mas sim, o entendimento da necessidade dos dois lados. A guerreira sabe que a verdadeira guerra acontece dentro dela e não fora. Porque todo o universo da Mãe Divina existe dentro dela.

Convido você a sentar com suas emoções. Parar. Respirar. Deixar-se sentir. Esperar o mar interior acalmar-se. Então, buscar o que por detrás de tudo isso e onde está as suas necessidades e o que você precisa de verdade? Porque as mulheres no mundo de hoje e nesta idéia de que deve sempre estar doando e ocupando de servir aos demais, esqueceu-se de si mesma e está irada porque suas necessidades não estão sendo atendidas, enquanto passa 24 horas por dias atendendo as necessidades de todos. Precisa lembrar, que o sentir é uma dádiva. Que o ouvir com empatia a si mesma e aos outros é um milagre, que desarma as pessoas de suas mentes mentirosas e as conecta com o puro fluxo do coração e restabelece todas as relações, forma vínculos e cura as nações. O Feminino é a energia que está precisando ser fortalecida cada dia em nós, com a coragem de ser vulnerável e descobri-se verdadeiramente forte e guerreira quando se coloca no campo da vida, sem medo de se mostrar, de se colocar e de interagir, a partir da sua própria verdade, das suas próprias necessidades e do seu coração, que é onde a Mãe Divina está. Isto é poder. Nossa maior arma. A paz que se estabelece na vida por ser quem você é, sem tensão, com liberdade e tranquilidade.

Por um mundo com mais empatia.
Por um mundo com mais acolhimento.
Por um mundo com mais flores no coração e não espinhos.
Por um mundo sem barreiras e com heras entrelaçando cada coração.
Por um mundo onde as armas sejam o amor.
Por um mundo onde o feminino sagrado caminhe na Terra curando as nações.
E esse mundo, mulher, acontece dentro de você!
Habite-o!

Acho muito interessante, que no livro Comunicação Não-Violenta, Marshall enumera alguns dos nossos hábitos que não permitem com que estejamos, de verdade, presentes com alguém e conectando-nos com empatia:

– Aconselhar
– Competir pelo sofrimento
– Educar
– Consolar
– Contar uma história
– Encerrar o assunto
– Solidarizar-se
– Interrogar
– Explicar-se
– Corrigir

Porque essas coisas acontecem? Porque quando vamos para o racional, não entramos no fluxo empático. Todos os itens acima, fazem com que tentemos fugir da situação o mais rápido possível ou coloca-nos em uma postura superior a outra pessoa. Mas, não no mesmo canal, na mesma sintonia, de coração para coração. Uma coisa muito comum, é como temos dificuldade em deixar uma pessoa chorar. Nós já queremos resolver. Isso começa desde bebê. O choro é um problema. Um incômodo. Demais para lidar-se. E o mesmo acontece com tudo relacionado ao feminino. Como é demais para lidar, vamos tachar de problemático, lá de antigamente, de histeria, de coisas de mulherzinha. E eu não quero ver essas coisas. Então, viramos pessoas robotizadas e mascaradas, onde o sofrimento fica oculto, mas nunca por muito tempo. Porque ele como uma vulcão, rompe todas as barreiras e chega à superfície. A idéia aqui, é que não precisa ser assim. Há uma outra forma de se viver e relacionar, e isso precisa começar com você.

Boas práticas!!!!

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