Eu sempre precisei dançar. Eu sempre gostei de dançar. Já passei por muitas danças. Fiz o caminho clássico pelo ballet e depois fiquei muito tempo nas danças de salão, amando a expressão do forró, da gafieira, do zouk e de tantas ritmos compartilhados a dois. Porém, quando conheci a dança de roda foi ali que descobri que minha alma faz-se feliz. A dança sagrada é onde adentro um espaço que dentro do cotidiano mundano, através da disponibilidade de dar as mãos e estar em roda, é a oportunidade de recriar um instante, um momento sagrado, que se torna presente naquele profano e entrelaça-se com cada história de vida e cada pulsação. Um indivíduo que escolhe tornar-se um todo, uma comunidade, um grupo que pulsa, apóia-se, cura-se e eleva-se para dentro e além do tempo comum. É ao mesmo tempo os tempos mundanos, sagrados e míticos em uma teia onde tudo flui de uma maneira orgânica. Anastasia Geng, diz “…quando você tem problemas, seus fluxos de energia estão bloqueados – dance com outras pessoas de preferência, suas energia fluem novamente e você pode resolver as dificuldades.” Peter Lovatt, psicólogo, diz que dançar pode mudar a nossa forma de pensar. Então, que tal experimentar sair da caixinha que muitas vezes nos aprisiona para nos remodelar através da dança? Ir além da sabedoria da mente e usar também a sabedoria do corpo. Porque no fundo todos nós estamos prontos para dançar, porque a dança sai de nós, vem através de nós e ao mesmo tempo é a pura expressão de quem somos.
                Sinto que o estar em círculo é criar um vórtice, uma espiral e um costurar de luz que gera movimento naquilo que estava parado, alinhamento naquilo que estava desordenado e calma naquilo que estava desandado em nós. Um movimento que criamos com nossos pés, com nossos corpos e corações, elevando nossa vibração para que tudo aquilo que havia em nós ser transmutado, revelado e entendido. Porque a música e a dança, é a própria vida e história em um caminhar lado a lado. É movimentar a dor, o amor e a própria vida. É deixar-se tocar. É deixar-se fundir. É deixar-se elevar. Porque através dos nossos corpos, através dos símbolos que criamos e desenhamos, como se trouxéssemos a vida uma mandala que ao final será desfeita junto com tudo aquilo que havíamos trazido ao entrar na roda e que ao final já não somos mais, mas somos também.
              Porque dança é entrar em um ponto de silêncio, um ponto de conexão, um ponto onde abro-me para que minha alma expresse-se e expanda-se criando com meu corpo, que é a força motriz e guia dos movimentos. “A energia move-se em ondas. Ondas movem-se em padrões. Padrões movem-se em ritmos. Um ser humanos é apenas isso, energia, ondas, padrões, ritmos. Nada mais. Nada menos. Uma dança,”, aponta Gabrielle Roth. Sinto que a dança é um momento que dedicamos a nós e ao mesmo tempo, um espaço fora do tempo que criamos juntos. Maria-Gabriele Wosien, diz que aprender a escutar o silêncio e prestar atenção no espaço que existe entre nós, é o melhor professor para o movimento.
            Tive a grande dádiva de estar o mais próximo da fonte das Danças Sagradas neste ano, em um curso com a Gabriele e através dela entendi o quão a intenção da dança também é importante e o quanto de saberes, conhecimentos míticos, simbólicos e ancestrais há por de trás de uma dança que é dançada e continuada, resgatada ou lembrada. Gabriele é filha de Bernhar Wosien, que em 1976 na Comunidade de Findhorn, ensinou pela 1a vez várias danças folclóricas, começando o resgate dessa ancestralidade dos povos, e que hoje está pulsando em todos os lugares, em diversas rodas, em muitas nações, porque é nossa natureza: dançar. A vida, a morte, as alegrias e tristezas, as celebrações e ocasiões especiais, as tradições, as orações, meditações ou simplesmente a necessidade de movimentar-se e dizer algo com este corpo dançante. Bernhard Wosien já disse que aquele que medita dançando encontra um adensamento de seu ser em um tempo não mensurável, no qual a força mágica da roda se manifesta. Porque o círculo tem um poder que acontece por si só, quer desejemos e coloquemos uma intenção ou não. Ele é maior do que nós, porque nós somos maiores juntos.
            Para mim, as danças circulares ou danças sagradas são de um poder incrível, assim como o círculo. Quando pessoas dispostas se juntam para dançar o mundo pode mudar pelo poder desse movimento. Quando nos juntamos para dançar o folclore ou as danças dos povos estamos honrando todos aqueles que vieram antes de nós e lembrando que fazemos parte de cada um deles. Que suas histórias devem ser lembradas e que minhas histórias devem ser dançadas. Sinto a dança como colocar os sonhos em movimento. Ao mesmo tempo é liberação e eliminação, assim como também é criação e elevação. Sinto a dança como um momento para sair da zona de conforto e encarar desafios, sair da mediocridade como disse Roseane Almeida na aula da Danças Brasileiras neste final de semana dentro do curso de formação da Comunidade Dedo Verde, um espaço para estarmos totalmente presentes em nós. De verdade e pela verdade. Porque o corpo nunca mente. Agnes de Mille já disse A expressão mais genuína de um povo reside na dança e na música. Os corpos nunca mentem! Se tem algo que é completamente honesto é o corpo. E ele precisa se movimentar. Nós precisamos nos movimentar. Porque a vida precisa andar. Lembrando e trazendo quem eu fui até agora, honrando minha história e de cada um da roda. Percebendo e abrindo-me para o momento presente, percebendo que estou onde escolhi estar. Lembrando e reconhecendo que eu preciso seguir em frente para um todo novo porvir. Sinto a dança como uma oração e meditação em movimento. Onde o grupo me leva e eleva para dentro de mim e para uma cocriação em conjunto de vidas que se juntam para criar tanta beleza. Para um momento de perfeita unidade, profundidade e reconhecimento de que estamos todos no mesmo barco, independente de onde viemos e de para onde formos. Por um instante, escolhemos estar juntos, por uma dança, caminhando juntos em direção a um mundo melhor. Em mim e fora de mim.
Que assim seja para mim!
Que assim seja para você!
Que assim seja para nós!
Dance! Simplesmente dance!

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